Retrato de família
Pesquisa realizada pela Fundação João Pinheiro aponta perfil dos domicílios mineiros Você é casado? Pratica atividades físicas? Quantos cômodos tem a sua casa? Quanto gasta com alimentação, lazer, vestuário? Questões como essas, que parecem interessar apenas a você e a sua família, podem ser muito úteis para órgãos e profissionais que atuam na elaboração de políticas públicas. Com esse propósito, a Fundação João Pinheiro (FJP) concluiu em agosto deste ano uma pesquisa inédita em Minas Gerais. A “Pesquisa por amostra de domicílios de Minas Gerais” (PAD/MG), realizada pelo Centro de Estudos em Políticas Públicas (CEPP) e o Centro de Estatística e Informações (CEI) da Fundação, reuniu amostragem detalhada do Estado, apresentando dados de todas as 12 divisões de Minas. A amostra incluiu mais de 18 mil domicílios em todo o Estado, 1.200 setores censitários de áreas urbanas e rurais, em 308 municípios. A pesquisa teve apoio da FAPEMIG, da Secretaria de Estado de Planejamento e do Banco Mundial, que após uma operação de empréstimo ao Estado de Minas Gerais sugeriu a execução de uma pesquisa que coletasse informações e criasse indicadores que permitissem o acompanhamento das políticas públicas desenvolvidas no Estado. O trabalho teve início em 2007. Desde então, seguiram-se as etapas de planejamento, concepção e programação do questionário, concepção do plano amostral, pré-testes e ajustes, pesquisa de campo e organização dos dados. A divulgação dos resultados aconteceu em agosto deste ano e o estudo encontra-se disponível no site da Fundação João Pinheiro (www.fjp.mg.gov.br). A pesquisa foi a campo entre junho e novembro de 2009, com uma inovação: o uso de um Ultra Mobile Personal Computer (UMPC), um computador portátil que permitiu que o trabalho fosse executado com mais agilidade e maior número de perguntas. Como conta a coordenadora da pesquisa, a socióloga Nícia Raies, foi a primeira vez que um aparelho do tipo foi utilizado na FJP e, sem ele, a aplicação do questionário esbarraria em questões como tempo, custos e disponibilidade dos moradores. “Mesmo os grandes institutos de pesquisa começaram a usar esses equipamentos recentemente”, diz. O UMPC é diferente do aparelho que está sendo utilizado no Censo 2010, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). “Ele é bem maior, com uma tela grande, porém, fácil de segurar. O equipamento permite que o pesquisador aplique o questionário estando em qualquer posição, mesmo em pé. A tela é touch screen, mas, diferentemente de outros equipamentos, ele possui um teclado, o que agiliza a aplicação. Essas três funções foram determinantes para a escolha do modelo”, detalha a pesquisadora. Na pesquisa, foram utilizados 130 aparelhos, manuseados pela equipe de campo que, durante o período de coleta dos dados, variou de 60 a 90 pesquisadores em ação. A equipe de revisão e checagem foi formada por aproximadamente 20 pessoas. “Não considerando a pesquisa de campo e a parte administrativa (porque houve envolvimento de toda a FJP), a equipe que atuou na pesquisa é multidisciplinar. Tivemos demógrafos, sociólogos, economistas, arquitetos, geógrafos e outros profissionais”, enumera a coordenadora. O questionário foi composto de 11 seções, com número variado de perguntas cada uma. Havia as seções de caracterização do morador e do domicílio, educação, saúde, trabalho, gastos, juventude, assistência social entre outras. O tamanho de cada uma delas dependia do próprio tema. Nícia Raies relata que os pré-testes do questionário ajudaram a definir seu tamanho final. Um dos itens previamente avaliados foi o tempo de aplicação desse questionário. “Foram vários pré-testes. Neles, entrevistávamos pessoas usando apenas papel e usando o equipamento. Em uma etapa inicial, chegamos a entrevistar conhecidos para verificar questões como, por exemplo, a fluência do questionário. Depois, tivemos um pré-teste maior, realizado em várias regiões do Estado, com moradores escolhidos de maneira aleatória.” O questionário final foi aplicado a famílias e municípios selecionados por meio de plano amostral. A amostra é estratificada, ou seja, foi dividida de forma a representar todas as regiões do Estado, com suas 12 meso-regiões. Os domicílios foram selecionados aleatoriamente, sorteados de acordo com os setores do município, a partir de critérios que garantissem a representação de todos os perfis de famílias encontradas em Minas Gerais. Entre as perguntas, estavam questões referentes, por exemplo, à caracterização dos domicílios (quantos quartos, quantos banheiros etc.), a caracterização dos moradores (idade, estado civil, raça), grau de escolaridade, trabalho, renda, gastos, benefícios recebidos do governo (como bolsa escola ou bolsa família), entre outras. “Quando, por exemplo, perguntamos o estado civil e a pessoa é casada, perguntamos como ela se casou. É interessante ver as diferenças. Cada região tem características distintas e isso é muito importante na hora de formular uma política pública. Quando não conhecemos essas diferenças fica mais difícil obter sucesso ao investir”, exemplifica a coordenadora da pesquisa.

Os questionários foram aplicados por meio de um computador portátil que garantiu mais agilidade e segurança ao processo
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Resultados Segundo Nícia Raies, os resultados da pesquisa mostram, em números e dados formais, coisas já observadas no senso comum. “O norte mineiro tem muitas diferenças em relação ao sul e ao Triângulo, mas também temos alguns pontos parecidos. Hoje estamos vivendo em uma sociedade em que tempo e espaço estão muito comprimidos. Temos tanto diferenças, como proximidades. O computador, por exemplo, já é algo totalmente disseminado”, diz. Para a pesquisadora, tocar na questão do desenvolvimento econômico é delicado e exigiria diversos fatores para análise. “Eu não me arriscaria a dizer que uma região é mais desenvolvida que outra, mas o que dá para perceber são diferenças entre o Triângulo e o norte mineiro. São vários exemplos. Há uma discrepância”, diz. Um dos exemplos é a taxa de analfabetismo. Na região dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri, 21,5% da população acima dos 15 anos não sabe ler nem escrever, enquanto, na Região Metropolitana de Belo Horizonte, a taxa não passa de 5,2% e, no Triângulo, de 7,5%. A pesquisa mostra outros dados interessantes. “O analfabetismo, por exemplo, é muito maior nas faixas etárias mais velhas e, principalmente, mais intenso na região Norte. Os resultados ainda mostram uma melhora no mercado de trabalho depois do período de crise. As rendas menores também estão na região norte do Estado”, relata Raies. A ausência de rede coletora de esgoto é outro item marcante em algumas regiões. Enquanto no Triângulo, 91,9% das casas têm rede de tratamento do esgoto, no norte, isso se verifica em 34,8% dos municípios. Já no que se refere à água canalizada, 97% das famílias mineiras incluídas na pesquisa são beneficiadas e, quanto à coleta de lixo, 85% dos domicílios são atendidos. As curiosidades ficam por conta das questões relacionadas aos hábitos e costumes da população. O tipo de união conjugal, por exemplo, varia bastante de uma região para outra. Enquanto no noroeste do Estado, 45,1% dos casais uniram-se com cerimônias civil e religiosa, no centro-oeste, este número sobe para 68,2%. A união informal foi a opção de 36,1% dos casais entrevistados na região dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri. No sul do Estado, este número é 20,5%. Outro dado interessante refere-se à prática de exercícios físicos. Na população de até 24 anos, 78,5% não praticam atividade alguma e apenas 11,5% fazem exercícios regularmente. Quando o assunto é saúde, 80,4% das mulheres considera a própria saúde “boa” ou “muito boa”. Os homens são mais otimistas. Em relação a eles, este número sobe para 84,6%. Segundo a coordenadora da pesquisa, os dados contemplam várias áreas de interesse e abrangem todo o Estado, o que pode ser de grande utilidade para instituições públicas e empresas. “Acho que o Estado vai usar bastante esses dados para criar indicadores e monitorar políticas. A pesquisa cobre algumas necessidades de quem trabalha com políticas públicas no Estado, entre as quais estão a apropriação desses resultados com maior tempestividade e a regionalização, já que a amostra da pesquisa é seu grande diferencial”, afirma. A PAD-MG será realizada de dois em dois anos, com o objetivo de acompanhar a evolução dos dados. A próxima, prevista para 2011, já está sendo preparada. De acordo com Raies, alguns ajustes serão feitos no primeiro modelo. “Há a possibilidade de rodízio de algumas questões que não precisam entrar sempre e pequenos erros serão corrigidos. Os setores pesquisados devem permanecer para que os dados sejam comparados”, diz. Revista 42 |