Trabalho Precioso
Centro de Estudos em Design de Gemais e Joias da Uemg é referência nacional e desenvolve pesquisas que vão além do setor joalheiro Os moradores de Coronel Murta, no Vale do Jequitinhonha (MG), não imaginavam que aquelas “montanhas” de pedras brancas que estão acostumados a ver acumuladas nas entradas dos garimpos do município pudessem deixar de ser um problema socioambiental para se transformar em uma solução. Graças aos pesquisadores do Centro de Estudos em Design de Gemas e Joias da Universidade do Estado de Minas Gerais (CEDGEM/Uemg), os resíduos da mineração – principal fonte de renda de Coronel Murta – estão sendo reaproveitados e utilizados em adornos e joias, por meio de um trabalho não só de pesquisa, mas também de inclusão social. A iniciativa rendeu ao grupo o 1º Prêmio Sebrae Minas Design, em 2008, e foi selecionada para participar da Bienal Brasileira de Design de Curitiba, realizada em setembro deste ano. O projeto em Coronel Murta revela que o trabalho do CEDGEM vai além das gemas e joias, como o nome sugere. O Centro dedica-se a atividades de pesquisa relacionadas à valorização dos bens e produtos minerais, atua na capacitação de recursos humanos e também busca soluções para questões socioambientais, como a do resíduo mineral. “A ideia é sempre buscar novas possibilidades não só formais do produto, mas técnicas, tecnológicas e materiais, a fim de levar isso para o setor. E estamos conseguindo”, afirma a coordenadora Bernadete Teixeira. Tudo começou em 2003 com o projeto Recope - Rede Cooperativa Integrada da Escola de Design da Uemg, uma parceria com a Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), vinculada ao Ministério de Ciência e Tecnologia, o Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial, da Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (Senai/Fiemg), a Associação dos Joalheiros, Empresários de Pedras Preciosas, Relógios e Bijuterias de Minas Gerais (Ajomig) e a FAPEMIG. “Era um projeto de pesquisa para realizarmos um levantamento de aspectos materiais e culturais, ligados ao setor joalheiro. Foi esse projeto que deu um impulso ao nosso trabalho na escola”, lembra. Com o Recope, a Escola de Design conseguiu recursos para instalar equipamentos na pequena sala que, mais tarde, transformaria-se num centro de pesquisa com seis laboratórios integrados (veja quadro). “Isso foi possível graças ao interesse crescente de estudantes e pesquisadores de todos os cantos. Foram aparecendo pessoas interessadas e cada vez mais projetos de pesquisa. Com eles, vieram os laboratórios”, acrescenta a coordenadora. Os laboratórios são integrados, portanto os pesquisadores buscam ligar as atividades dentro de um processo sistêmico, de modo que um projeto, dificilmente, seja de apenas um laboratório. “Nós vamos articulando as atividades de modo que eles fiquem sempre fazendo um trabalho de retroalimentação”, explica Bernadete. Atualmente, são 15 pesquisadores, dez alunos, sete projetos em andamento e uma coleção de dez prêmios, conquistados somente nos últimos dois anos, entre eles o Concurso Swarovski Passion Topaz Design Competition 2009, cujos produtos foram incluídos no Catálogo Swarovski que contêm os 30 melhores projetos do mundo, apresentados na Feira de Joias de Basileia, na Suíça. “No Prêmio IBGM (Instituto Brasileiro de Gemais e Metais Preciosos) de Design de Joias deste ano, dos 30 premiados, 22 são mineiros e desses 22 os que não foram alunos de graduação, foram alunos de pós-graduação da Uemg”, conta, orgulhosa, a pesquisadora Maíra Paiva Pereira, vencedora na categoria Joias com Lapidação Diferenciada.
Responsabilidade social Do premiado trabalho em Coronel Murta, a menina dos olhos do CEDGEM, derivaram outros projetos como o Da Gema – Itaporarte, uma parceria com o Centro Minas Design e financiado pela FAPEMIG. Desde então, os pesquisadores buscam o maior aproveitamento das riquezas locais, utilizando resíduos da extração de gemas aplicados em 48 protótipos de quatro linhas de produtos: uma linha de souvenires; uma de objetos de adornos; uma de objetos decorativos; e outra de objetos utilitários. Também faz parte do trabalho a capacitação de 40 jovens futuros artesãos minerais da cidade. Todas as atividades são realizadas no Laboratório Itaporarte de Lapidação e Artesanato Mineral, instalado em 2005 em um espaço cedido pela Prefeitura local. O nome Itaporarte, que costuma despertar curiosidade, é uma associação do antigo nome da cidade, Itaporé (Cachoeira da Pedra, na linguagem indígena), com a palavra arte, e foi sugerido pela própria comunidade. A meta, que vem sendo cumprida com sucesso, é contribuir para a transferência de conhecimento e o desenvolvimento de tecnologia própria associada a aspectos de inovação e design e, consequentemente, promover a inclusão social na região. Segundo os pesquisadores do CEDGEM, a matéria-prima é abundante em Coronel Murta, especialmente o cascalho de turmalina e o feldspato. No entanto, é subutilizada. Com o projeto Da Gema – Itaporarte, os recursos minerais passaram a ser melhor aproveitados, novos produtos estão sendo desenvolvidos para o setor joalheiro e os moradores locais ganharam a oportunidade de aprender um ofício e aumentar a renda da família, sem ter que deixar a cidade natal, que está em uma das regiões mais pobres do país. “Consideramos a identidade local e buscamos trabalhar não só com a matéria-prima, mas também com a iconografia da região, que a comunidade mesma sugere. Talvez por isso, o trabalho tenha uma aceitação tão boa. Não é uma coisa de fora, tem o DNA dali”, ressalta Mara Guerra, coordenadora do Laboratório Itaporarte. O primeiro resultado são as joias artesanais de feldspato, cascalho de turmalina e quartzo – todos oriundos do resíduo mineral –, que foram expostas este ano na Tecnogold - Feira Internacional de Joias, Gemas e Relógios, realizada em São Paulo.

Integrantes da equipe do CEDGEM/Uemg
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Modelagem virtual em 3D A prototipagem rápida é outra linha de pesquisa do CEDGEM, que tem feito muito sucesso e pode ser considerada referência nacional. O processo tecnológico que envolve a modelagem virtual e a fabricação de modelos tridimensionais tem uma aplicação valiosa no setor de gemas e joias. No laboratório, coordenado pelo professor Henrique Lana, é possível, entre outras coisas, validar uma peça antes de fabricar o seu molde. Pelo computador, o pesquisador avalia o volume, a forma e ainda cria um protótipo em resina para evitar erros e perdas na produção. Entre os projetos que estão por vir, ele cita a utilização da computação gráfica no desenho de joias – o que permitiria a produção de modelos complexos e articulados que um ourives não conseguiria confeccionar –, e o resgate histórico de peças desaparecidas, como uma joia roubada de um museu, por exemplo. Com apenas a descrição, os pesquisadores seriam capazes de reproduzi-la virtualmente, em três dimensões, e até de confeccioná-la se fosse necessário. “São inúmeras possibilidades de aplicação, ressalta o professor Lana. A coordenadora do CEDGEM também lembra a amplitude e relevância do trabalho realizado nos demais laboratórios integrados. “Não desenvolvemos apenas projetos de joias e objetos de adorno. Desenvolvemos pesquisas científicas e tecnológicas para este setor que é uma tradição e uma vocação de Minas Gerais”, resume Bernadete. Laboratórios Integrados de Gemas e Joias Projetos: desenvolvimento de projetos de produtos para o setor de gemas e joias, considerando primordialmente os aspectos materiais e iconográficos regionais. Neste laboratório, as possibilidades técnicas, materiais, formais e tecnológicas desenvolvidas nos demais convergem para a concepção e desenvolvimento dos produtos.
Lapidação: dedicado à pesquisa e desenvolvimento de novos produtos a partir dos minerais oriundos da exploração dos corpos pegmatíticos do Estado de Minas Gerais, englobando técnicas de lapidação avançada e produção de artesanato mineral.
Prototipagem Rápida: ênfase no processo tecnológico que envolve a modelagem virtual e a fabricação de modelos físicos tridimensionais. A prototipagem rápida permite, diretamente de um desenho em CAD, a materialização e visualização de produtos para a análise e ajuste das suas condições na fase pré-produção.
Anglogold Ashanti de Pesquisa em Ligas de Ouro: voltado para pesquisa e desenvolvimento de novas formas de utilização do ouro na joalheria. Seus equipamentos permitem a preparação de ligas de ouro não usuais para estudos de suas propriedades mecânicas e adequações às diferentes técnicas de produção de joias e afins.
Cerâmica: a meta principal deste laboratório é desenvolver massas cerâmicas mais resistentes e mais finas para aplicação em adornos que não são, necessariamente, joias.
Itaporarte: laboratório avançado em Coronel Murta, no Vale do Jequitinhonha. É um trabalho em parceria com a prefeitura local, que cedeu o espaço e o Sindicato dos Garimpeiros do Vale do Jequitinhonha. Tem duas vertentes: a capacitação de moradores da região e o desenvolvimento de produtos a partir do material descartado da estação mineral.
Revista 42
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