Oralidade X Escrita

Grupo analisa impactos do letramento em uma comunidade indígena do Norte de Minas

A Constituição de 1988 é um marco para as comunidades indígenas brasileiras. Com sua promulgação, os índios deixaram de ser considerados uma categoria social em vias de extinção e passaram a ser vistos como grupos étnicos diferenciados, com direito a manter sua organização social, costumes, línguas e crenças. Ela também assegura às comunidades indígenas o direito a uma educação escolar diferenciada, com a utilização de suas línguas maternas e processos próprios de aprendizagem. A coordenação das ações de educação indígena é responsabilidade do Ministério da Educação, cabendo aos estados e municípios a sua execução.

Do encontro entre a alfabetização e a tradição oral característica dessas comunidades nascem múltiplos conflitos, criando um terreno fértil para investigações no campo da educação. Na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), o Grupo de Educação Indígena, formado por pesquisadores de diferentes áreas e instituições, estuda a transformação das comunidades indígenas a partir da chegada da escola. Criado em 2000, o grupo é coordenado pela professora Ana Maria Rabelo Gomes, da Faculdade de Educação (FAE) da UFMG.

Os primeiros trabalhos acompanharam duas etnias, Maxacali e Xakriabá, as maiores de Minas Gerais. A hipótese que orientava o estudo era a de que a escolarização não acontece de forma uniforme, ela passa por um mecanismo de negociação com as práticas culturais tradicionais. \\\\\\\\\\\\\\\"Os integrantes da equipe acompanhavam o dia-a-dia da aldeia, registrando suas observações em diários de campo. Essa primeira pesquisa originou três teses de doutorado, cinco dissertações de mestrado e várias monografias em áreas como Educação, Ciências Sociais e Economia\\\\\\\\\\\\\\\", lembra a professora.

Ao fim da investigação sobre os processos de apropriação da escrita e de escolarização, a equipe reuniu dados sobre as formas de criação, armazenamento e transmissão do conhecimento entre as comunidades indígenas. Com base neles, o pesquisador Carlos Henrique de Souza Gerken, do Departamento de Psicologia da Universidade Federal de São João del Rei (UFSJ) e membro do grupo de pesquisa, deu início a outro projeto: \\\\\\\\\\\\\\\"Produção e transmissão do conhecimento na cultura tradicional Xakriabá: contradições do cenário contemporâneo\\\\\\\\\\\\\\\".

“A proposta era observar as transformações que ocorriam junto com o processo de apropriação da escrita, especialmente no caso das práticas culturais\\\\\\\\\\\\\\\", explica o professor. A etnia Xakriabá foi escolhida porque passaria pelo processo de escolarização pela primeira vez – as tentativas anteriores, segundo Gerken, não seguiram as características da educação indígena propostas pelo Ministério e não atingiram a comunidade como um todo. A partir da observação de um evento de letramento, a equipe procurou analisar diversos aspectos, como, por exemplo, a construção da escrita em uma comunidade pouco letrada, a interação entre a oralidade e a escrita e a articulação entre os valores e as representações construídas em torno do uso da linguagem oral e escrita.


Cultura preservada

Os Xakriabá são considerados a maior nação indígena de Minas Gerais, com aproximadamente sete mil habitantes, distribuídos em 29 aldeias, localizadas em um território de 53 mil hectares no Norte do Estado. Para realizar o estudo, foi feito um recorte no universo de investigação. Os trabalhos se concentraram nas aldeias da Caatinguinha e do Barreiro Preto. Como conta Gerken, os Xakriabá se diferenciam por uma história marcada por quase 300 anos de contato com outras culturas. As aldeias conviveram primeiro com os bandeirantes, depois com pecuaristas e também com garimpeiros. Como resultado, alguns elementos externos foram incorporados à sua cultura. A Festa de Santa Cruz e a Via Sacra, por exemplo, duas das festas mais tradicionais entre os Xakriabá, são representações de celebrações da religião católica.

A pesquisa concentrou-se na análise da Via Sacra. Este ritual integra as festividades da Semana Santa e realiza-se no cemitério da aldeia. Na preparação do espaço para celebração, são assinaladas 14 estações ao longo do perímetro interno do cemitério, em cartazes escritos à mão e pendurados nas cercas. Os rezadores são responsáveis por entoar os benditos e as ladainhas, formas melódicas caracterizadas pelo ritmo e pela repetição em diferentes vozes. As ladainhas soam como uma mistura de latim e português.

Em cada uma das estações, canta-se um trecho do ofício (tipo especial de ladainha que conta a história da Paixão de Cristo), realiza-se uma leitura e canta-se um bendito. As leituras são realizadas a partir do livro “Cartilha da Doutrina Cristã”, que data do início do século XX e incorpora tanto lições de catequese como de primeiras letras e aritmética. Mas o interessante, como aponta o pesquisador, é que o rezador que conduz a festividade não domina a linguagem escrita. Ele conhece os seus conteúdos pela participação em práticas anteriores, nas quais assumiu o papel de ouvinte.


Mas a equipe notou algo diferente: durante o ritual, algumas pessoas, geralmente as mais jovens, acompanhavam as rezas utilizando-se de anotações escritas. Os textos eram uma tradução do que se ouvia e, lidos isoladamente, não têm sentido. “Essa foi uma transformação motivada pela introdução da escola. Os membros alfabetizados da comunidade, especialmente as mulheres, tentam escrever as ladainhas para acompanhar os ritos”, acredita Gerken.

Dessa forma, a escola, que poderia significar a perda da identidade pela introdução de novos temas e práticas, representa, na verdade, uma retomada da cultura tradicional. “Os costumes são ensinados em sala de aula, o que garante sua continuidade, uma preocupação constante dos mais velhos”, diz. Para ele, outra conseqüência interessante da escola é que, atualmente, todas as crianças aprendem desde cedo que são índias, e o que isso significa.

Todas essas manifestações culturais foram gravadas em áudio e vídeo. Depois, foi realizada a transcrição para partituras e a descrição das melodias e cantos. O professor lembra que, para a observação dos rituais, a equipe precisou se integrar à rotina da aldeia. “Esse tipo de trabalho requer uma participação distanciada, foi necessário seguir as regras de etiqueta locais. As diferenças de gênero, por exemplo, são muito fortes. O ritmo de vida e a dinâmica de sala de aula, por sua vez, são lentos. A abordagem é feita de forma cuidadosa”.
Todo o material produzido compõe, hoje, o acervo do grupo de pesquisa da UFMG. A equipe também prevê a publicação, daqui a cerca de dois anos, de um livro com a compilação de todos esses trabalhos e resultados. Um outro projeto futuro é disponibilizar esse material para uso dos próprios Xakriabá.

Outros estudos

A análise da influência da escola nos rituais tradicionais é apenas uma das vertentes estudadas pelo grupo de pesquisa. Como ele é composto por professores de diferentes áreas, vários temas foram investigados. Por exemplo, o professor Rogério Carvalho de Godoy, da UFSJ, trabalhou com a retomada da produção de cerâmica com os Xakriabá. O trabalho se estendeu para a produção de materiais de construção, como telhas e tijolos, que os membros da comunidade utilizam em suas obras.

Um outro trabalho, da área de Economia, analisou o consumo e a produção de farinha de mandioca nas comunidades. Apesar do grande consumo, percebeu-se que menos de 200 famílias produziam a matéria-prima. Com a introdução de novas técnicas de produção e a construção de “casas de farinha” comunitárias, onde o produto é fabricado, a produção cresceu e, hoje, funciona como opção de renda para os Xakriabá.
A equipe tem observado, também, a emergência de um novo ator social dentro da reserva: os professores indígenas, que aparecem com a chegada das escolas. Para Gerken, esse é um aspecto interessante de ser estudado, pois eles são representantes da cultura letrada dentro de um grupo cuja cultura ainda é predominantemente oral. “Em algumas aldeias, como a Caatinguinha, quase não existiam sujeitos alfabetizados. Por isso, houve certa resistência dos pais em tirar os filhos do trabalho na roça. Mas, aos poucos, a escola foi se tornando parte da vida local e os professores, membros de destaque das aldeias”, diz.


Na UFMG, o Grupo de Educação Indígena participa, ainda, das discussões sobre o projeto pedagógico para formação dos professores indígenas. Como explica Gerken, existe uma proposta para Minas Gerais, mas as práticas pedagógicas são adaptadas ao contexto de cada etnia. Um dos problemas discutidos atualmente diz respeito à avaliação das escolas indígenas, que ainda segue os mesmos critérios das outras instituições de ensino. “Existe uma demanda da comunidade por uma avaliação diferenciada, assim como o ensino é diferenciado”, completa Ana Maria Rabelo.


Desde 2005, a UFMG realiza um vestibular específico para professores indígenas. Entre as etnias beneficiadas estão os Maxacali, Crenaque, Pataxó, Caxixó, Xucuru-cariri, Pancararu e Xacriabá. O processo seletivo é realizado de forma diferente: os candidatos entregam memorial e carta de apresentação, escrita por representantes da comunidade indígena, realizam atividades de leitura e escrita, e se submetem a entrevistas. Em 2009, será realizado um processo seletivo diferenciado para um curso regular de Licenciatura Intercultural para Professores Indígenas, com 35 vagas disponíveis. A proposta é que, no futuro, sejam disponibilizadas também vagas para outros cursos, especificamente na área de saúde, cuja demanda é grande.

Vanessa Fagundes

Projeto: “Produção e transmissão de conhecimentos na cultura tradicional Xakriabá: contradições do cenário contemporâneo”
Coordenador: Carlos Henrique de Souza Gerken
Modalidade: Edital Universal
Valor: R$18.799,44

Revista Minas Faz Ciência Nº 37 (Mar. a Mai. de 2009)