O negócio é inovar
Empresas mineiras investem em pesquisa para garantir competitividade e diferencial no mercado

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Quando o assunto é inovação, o desempenho das empresas brasileiras vem apresentando resultados positivos nos últimos anos. De acordo com os resultados da Pesquisa Industrial de Inovação Tecnológica (Pintec 2005) divulgados neste semestre, o percentual de empresas que promoveram inovações tecnológicas no Brasil registrou aumento de 8,4% em dois anos. Em 2003, eram 28.036. Esse número saltou para 32.795 em 2005.
Ainda segundo a pesquisa, os elevados custos, riscos econômicos excessivos e escassez de fontes de financiamento foram os principais obstáculos que as empresas encontraram para promover a inovação. Apesar das dificuldades, muitas empresas provam que é possível, sim, inovar e, o principal, lucrar muito com a inovação. Um exemplo são as pesquisas desenvolvidas pela Companhia Brasileira de Metalurgia e Mineração (CBMM), reali-zadas nos laboratórios do Centro de Tecnologias da empresa ou em parceria com centros de pesquisa de todo o mundo.
Essa empresa privada, de capital nacional, é dedicada à extração, processamento, industrialização e comercialização de produtos derivados do nióbio. Este metal, de número atômico 41, foi descoberto no início do século XIX pelo químico inglês Charles Hatchett. Ele foi utilizado industrialmente pela primeira vez em 1930, na prevenção de processos corrosivos em aços inoxidáveis. Uma das maiores reservas mundiais de nióbio está localizada em Araxá, no Triângulo Mineiro. Quando foi descoberta na cidade, em março de 1953, não havia processos para aproveitamento do metal, bem como demanda comercial para produtos deri-vados. As pesquisas realizadas no local pela CBMM contribuíram para mudar esse quadro.
De acordo com o diretor de Tecnologia, Tadeu Carneiro, pesquisa e desenvolvimento nas áreas de aplicação consomem mais de 2% do faturamento anual da empresa. “Ao investir em pesquisas, obtemos processos produtivos mais eficientes, produtos de nióbio mais sofisticados e de menor custo, e aumento do mercado”, garante. So-mente em 2007, informa, a empresa vai investir R$ 15,8 milhões no Centro de Tecnologias. Segundo o diretor, a inovação é um produto e depende de idéias criativas. “Investir em inovação não só cria mercado, mas também faz com que a empresa fique mais competi-tiva. Inovações associadas à deposição de rejeitos na empresa, por exemplo, consolidaram o programa de sustentabilidade da companhia.”

Laboratório da CBMM, em Araxá (MG): 2% do faturamento da empresa é aplicado em pesquisa e desenvolvimento
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A empresa também promove o desenvolvimento da tecnologia de nióbio. Hoje, a aplicação mais importante desse metal é como elemento de liga para conferir melhoria de propriedades em produtos de aço. Basta uma pequena quantidade de nióbio para que, aliado a um processamento adequado, obtenha-se um aço microligado resistente, tenaz e com boa soldabilidade. Essa quantidade varia de 300 gramas a um quilograma de nióbio por tonelada de aço. “Isso faz com que o aço deixe de ser comum e passe a ser especial. A adição de nióbio representa um pequeno aumento no custo do cliente, de menos de 1%. Por outro lado, ele passa a vender seu produto por um valor 30% a 50% mais alto, proporcionando um substancial retorno”, garante.
Os aços de alta resistência são usados na fabricação de automóveis, tubulações para transmissão de gás sob alta pressão e aços estruturais de pontes, edifícios e navios. O material é empregado também em aços inoxidáveis como os utilizados nos sistemas de escapamento dos automóveis. O uso de aços que contêm nióbio pode promover até 20% de redução de peso na estrutura e até 10% de redução de peso na suspensão dos automóveis. Como conseqüência, os carros se tornam mais leves e eficientes, e gastam menos combustível, possibilitando a redução de emissão de gases para a atmosfera.
Futuro promissor Segundo o diretor, são inúmeras as potenciais novas utilizações do nióbio. Contudo, os maiores avanços continuam sendo na área siderúrgica. Aços tecnologicamente mais avançados ainda são os melhores substitutos para os aços convencionais. Novos aços inoxidáveis contendo nióbio estão em desenvolvimento para substituírem os que utilizam grandes quantidades de níquel. O nióbio também parece ter um futuro promissor em aplicações químicas. A aplicação do metal como catalisador sólido é estudada por várias décadas. Recentemente, a empresa vem desenvolvendo pesquisas para criar um ácido nióbico sólido como catalisador na produção de biodiesel.
Na opinião de Tadeu Carneiro, a inovação é fundamental para que a empresa continue competitiva. “Continuar inovando em processos produtivos e produtos de nióbio geram benefícios de custo, de melhor utilização dos recursos naturais e de continuada antecipação na solução de questões ambientais presentes em qualquer processo industrial”, afirma o diretor. E completa: “Investir em inovação é de igual importância para que o nióbio continue sendo a solução tecnológica mais efetiva nas aplicações em que já é utilizado e naquelas que estão sendo desenvolvidas”.
Dos 820 funcionários da companhia, 56 são voltados para pesquisa. No Centro de Tecnologias, por exemplo, localizado junto à planta industrial, em Araxá, trabalham 19 desses pesqui-sadores. Eles atuam nas atividades de desenvolvimento de processo, novos produtos e suas aplicações. Os 37 profissionais restantes trabalham no labo-ratório analítico e realizam atividades de desenvolvimento tecnológico, pesquisa e produção. Além desses pesquisadores, a CBMM oferece bolsas de estudo para pesquisas em universidades. A empresa já patrocinou mais de uma centena de mestrados e doutorados desde o início do programa, na década de 70. Para isso, a universidade tem que estar associada a um programa de desenvolvimento conjunto com algum cliente.
A empresa promove publicações técnicas e científicas, bem como simpósios e conferências. Através do Instituto de Materiais de Londres, mantém, desde 1979, o prêmio anual Charles Hatchett, oferecido aos autores do melhor trabalho publicado na área de materiais contendo nióbio. A CBMM possui parcerias tecnológicas com a chinesa CNPC (gasodutos), a multinacional Arcelor Mittal, Jefferson Lab (EUA), GE e Rolls Royce (para próxima geração de materiais para palheta de turbinas), e seus centros de desenvolvimentos.
Retorno garantido Outra empresa que se destaca pelos investimentos em pesquisa e desenvolvimento é a Vallée S.A., empresa farmacêutica dedicada à fabricação de produtos veterinários como vacin

Laboratório da Vallee, empresa farmacêutica localizada no Norte do Estado
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Segundo Américo Martins Craveiro, diretor de Gestão Tecnológica, um terço desses projetos é realmente inovador. Ao todo, são cerca de 50 pessoas envolvidas nas áreas de pesquisa e desenvolvimento. O faturamento anual da empresa é de R$ 160 milhões e ela investe de 5% a 6% desse montante em pesquisas.
A Vallée promove estudos em parceria com várias instituições e possui um laboratório de tecnologia farmacêutica e engenharia bioquímica em sua sede. Segundo o diretor, investir em inovação é uma condição para a própria perpetuação da empresa. “A inovação traz vantagens econômicas, agrega conhecimento e diferencia os produtos. Não é um dinheiro jogado fora. O empresário vai ganhar muito com isso. Mas é depois de três a cinco anos de investimentos que o empre-sário vai ter retorno”, afirma.
Para ele, não basta ter pessoal nas áreas de pesquisa e desenvolvimento. É necessária, também, uma equipe de marketing e produção industrial, além de atividades para promover a integração das equipes. “O sistema aca-dêmico brasileiro é muito forte. É necessário que a empresa tenha uma percepção clara de que deve ter uma base tecnológica em casa, formada por profissionais com formação e competências necessárias e infra-estrutura de laboratórios”, defende.
Américo Craveiro também acumula a função de vice-presidente da Associação Nacional de Pesquisa, De-senvolvimento e Engenharia das Em-presas Inovadoras (Anpei). Segundo ele, a questão histórica no Brasil quanto às dificuldades de promover inovação passavam principalmente pela falta de estímulos no passado. “Para os empresários inovarem, é preciso ter um ambiente propício, com incentivos fiscais, agilidade para registrar patentes, e criação de fundos setoriais. Hoje, o cenário é muito mais favorável no País”, disse.
Parceria com universidades A Companhia Energética do Estado de Minas Gerais (Cemig) é outro bom exemplo de como as empresas inovam no Estado. O Gover-no de Minas não só promove a pesquisa em centros de excelência e financia projetos de pesquisa por meio da FAPEMIG, como também investe em conhecimento na estrutura das próprias empresas estatais.
A Cemig sempre investiu em pesquisa, desenvolvimento e inovação tecnológica, mesmo quando isso não era uma determinação legal, segundo Luiz Carlos Leal Cherchiglia, assessor da Superintendência de Tecnologia e Alternativas Energéticas. Em 1967, a Cemig criou, de forma pioneira no setor elétrico brasileiro, o Centro de Tecnologia e Normalização, órgão responsável por estudar, pesquisar, desenvolver e adaptar tecnologia para a Cemig, além de promover a normalização técnica interna e externa.

O LCR, que investiga descargas elétricas, é fruto de uma parceria empresa-universidade
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“Em meados de 2000, com a lei que determina o investimento compulsório em pesquisa e desenvolvimento, a Cemig já tinha experiência na condução de programas de pesquisa e desenvolvimento”, lembra. Atualmente, a empresa desenvolve o programa anual de pesquisa e desenvolvimento junto à Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel). Em 2006, investiu R$ 20 milhões, em cerca de oitenta projetos.
Segundo ele, antes de atender a obrigações legais, o programa tem por objetivo apoiar esforços com foco em inovação tecnológica, estimulando as atividades de criação e de conhecimento necessárias ao setor elétrico do País. “Tais esforços são sempre desenvolvidos em conjunto com universidades, centros de pesquisa, consultorias e o setor produtivo em geral, tanto de Minas como de outros estados.” Praticamente todas as entidades de pesquisa do Estado são parceiras da Cemig, garante, e a maioria dos projetos é em parceria com a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Universidade Federal de Itajubá (Unifei) e com a PUC Minas.
Desses 80 projetos apoiados, a metade são novos e a outra metade projetos em continuidade de anos anteriores. Todos são submetidos à Aneel, que é responsável pela sua aprovação, e envolvem todas as áreas de atuação da empresa. “As pesquisas e desenvolvimentos tecnológicos realizados pela Cemig visam sempre à otimização de seus processos e produtos, buscando também a sobrevivência da empresa, através de projetos estratégicos e de longo prazo, como os que pesquisam novas alternativas energéticas.
Segundo Cherchiglia, diversas pesquisas já resultaram em produtos incorporados ao dia-a-dia da empresa, como métodos de engenharia, softwares, dispositivos e equipamentos, contribuindo para redução de custos operacionais, aumento da confiabilidade e segurança dos sistemas e instalações da empresa, controle ambiental e desenvolvimento das alternativas energéticas.
O Light Research Center (LRC), Núcleo de Desenvolvimento em Descargas Atmosféricas, nasceu dos investimentos da Cemig em projetos da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). O Centro desenvolve meto-dologias não convencionais de linhas de transmissão e estudos para proteger sistemas elétricos de potência. Segundo o pesquisador Silvério Visacro Filho, que coordena o Centro, o impacto dos investimentos da Cemig é impressio-nante. “O Centro vive desses recursos, e nós nunca tivemos tanto quanto agora. Eu tenho uma carteira de projetos de R$ 4 milhões da Cemig/Aneel.” Silvério afirma que, além de investir nas pesquisas, a Cemig construiu o prédio do LRC em 2001. “A Cemig investe de três a quatro milhões por ano.”
O LRC já desenvolveu instrumentos e medidores especiais para re-gistrar correntes de raios, já desenvolveu softwares e é responsável pela formação de mão-de-obra especiali-zada. Além de executar os projetos, o Centro desenvolve cursos de especiali-zação com abordagem mais tecnológica, um deles na área de proteção contra descargas e aterramentos elétricos. Apesar de abertos à comunidade, um grande número de alunos faz parte do quadro de pessoal da Cemig.
Thaís Pontes \r\nRevista Minas Faz Ciência Nº 30 (Jun a Ago de 2007) |