Parque do Ibitipoca

Diagnóstico ambiental aponta caminhos para a sustentabilidade da região


Geraldo César Rocha, pesquisador do UFJF

Com cerca de 1.488 hectares, o Parque Estadual do Ibitipoca se destaca pela beleza e diversidade de sua flora e fauna. Localizado na região Sudeste de Minas Gerais, a 90 km de Juiz de Fora, o local é habitado por candeias, orquídeas, samambaias, líquens, espécies raras de bromélias e pela exótica drosera, uma planta carnívora encontrada junto aos rios que se alimenta de insetos.

O Parque abriga, também, animais ameaçados de extinção, como o lobo-guará, a onça-parda e o macaco monocarvoeiro, maior primata das Américas. Outra peculiaridade são as cachoeiras e rios com suas águas em tom de ferrugem, resultado do acúmulo de minérios e da decomposição de matéria orgânica nas nascentes. O local se destaca, ainda, pelas diversas grutas, sendo uma delas, a Gruta das Bromélias, considerada a segunda maior caverna de formação quartzítica do mundo, com 2.750 metros de extensão. O nome do Parque, aliás, tem origem nas inúmeras formações rochosas da região.

Em tupi-guarani, Ibitipoca significa “casa de pedra”.

Com tantos atrativos e belezas naturais, não é de se espantar que o Parque tenha se tornado um dos destinos favoritos dos adeptos do turismo ecológico. A região recebe, diariamente, dezenas de turistas que percorrem as trilhas e acampam no local. Apesar do impacto inicial positivo para as localidades próximas, que prosperaram graças à renda gerada por esses visitantes, o turismo, com o passar do tempo, se tornou responsável por diversos danos ambientais ao Parque do Ibitipoca. Um exemplo é a proliferação dos núcleos de desertificação, áreas formadas por extensões de areia branca onde a vegetação não encontra condições para se desenvolver.


Mapa I - Risco de queda de blocos rochosos do Parque Estadual do Ibitipoca e arredores
“Para que a situação não se agrave, é urgente a implantação de um plano de manejo para o local”, alerta o geólogo Geraldo César Rocha, professor da Universidade Federal de Juiz de Fora e coordenador do Núcleo de Zoneamento e Risco Ambiental. Plano de manejo compreende o conjunto de intervenções e atividades de gerenciamento que têm como objetivo promover a conservação biológica, proteger sítios naturais, proporcionar a educação ambiental e incentivar a pesquisa científica, entre outros. “Apesar de ter sido criado em 1973, o Parque não possui nada parecido. Esse plano é importante principalmente porque disciplina o uso da área, evitando a degradação ambiental e diminuindo os riscos para o turista”, completa.

A fim de fornecer subsídios para a elaboração de um plano de manejo para o local, o professor deu início ao projeto “Cartografia e geoprocessamento aplicados ao zoneamento ambiental do Parque do Ibitipoca e arredores”, financiado pela FAPEMIG. Por meio da coleta e análise de dados sobre relevo, clima, geologia, solo, entre outros aspectos físicos, a equipe, coordenada por Rocha, construiu um diagnóstico ambiental completo da região.

O professor conta que a opção de se estudar não somente a área do Parque, mas também a região do entorno, explica-se pela importância crescente dessa vizinhança, que deve funcionar como um espaço auxiliar, abrigando os turistas e atenuando o impacto resultante da visitação crescente a locais de proteção ambiental. Assim, a equipe analisou uma área total de cerca de 14 mil hectares, dez vezes maior que o perímetro do Parque. Concluído em 2003, o estudo resultou em um banco digital de dados do Parque do Ibitipoca e arredores que permite, entre outros, apontar caminhos para o uso e manejo sustentável da área.


Cenários ambientais
Os trabalhos de Geraldo Rocha na região começaram em 1995, com levantamentos da área interna do Parque. O material foi incorporado ao projeto mais recente, cuja primeira etapa consistiu no mapeamento da região. Para isso, foram utilizadas imagens de satélite, fotos aéreas e imagens fornecidas por radar. De acordo com o professor, nesse momento a equipe analisou os dados e obteve um esboço preliminar do local estudado e seus diversos fatores ambientais como solo, vegetação, hidrografia, clima e relevo.

A segunda etapa é o trabalho de campo. Foram organizadas expedições a determinados pontos do Parque para coleta de material. Os grupos de coleta são formados por profissionais de áreas distintas, que fazem suas medições e mandam as amostras recolhidas para análises física e química em laboratório. No caso de estudos sobre o solo, por exemplo, são obtidos dados sobre o pH, fertilidade, composição etc. Já a análise da vegetação inclui catalogação e descrição de espécies. As informações obtidas em campo, aliadas às análises de laboratório, permitem a elaboração de um mapa básico, do qual irão derivar cartas de solo, geomorfologia, vegetação e geologia.

O próximo passo foi o geoprocessamento. A técnica consiste no processamento informatizado dos dados utilizando programas de computador que permitem o uso de informações cartográficas (mapas e plantas) e informações associadas a determinados pontos desses mapas ou plantas (pH do solo, tipo de vegetação). Para tanto, foi empregado o sistema de informação geográfica Saga (Sistema de Avaliação Geo-Ambiental), conjunto de programas desenvolvido pela Universidade Federal do Rio de Janeiro especificamente para a área de meio ambiente.

A vantagem desse sistema é que ele permite expor diferentes cenários ambientais e traçar prognósticos. Um dos resultados do projeto de pesquisa, por exemplo, foi o mapa “Riscos de queda de blocos rochosos do Parque Estadual do Ibitipoca e arredores” (mapa 1). Esse trabalho mostra cinco níveis de risco de desprendimento e queda de rochas, que vão desde baixíssimo risco até altíssimo risco. Observando o desenho, é possível notar que as áreas de maior risco, representadas pelo vermelho-escuro, situam-se no interior do Parque e próximas às trilhas geralmente usadas pelos visitantes. No paredão de rocha que limita a Prainha, por exemplo, local bastante procurado pelos turistas, é possível observar uma grande cicatriz deixada pela queda de um bloco de rocha. “Isso nos leva a concluir que o traçado das trilhas é inadequado. Esse mapa é de extrema importância para a elaboração de um plano de manejo, pois permite ao gestor redesenhar as trilhas levando em consideração locais perigosos e frágeis”, acredita Rocha.


Universidade Federal de Juiz de Fora, onde a pesquisa é desenvolvida

Outro produto do trabalho da equipe é o mapa “Areais: ameaça de desertificação na região de Ibitipoca/MG” (mapa 2). O diagnóstico ambiental da região apontou a presença de locais de alto impacto e fragilidade, classificados geologicamente como areais. Eles são caracterizados pelo solo arenoso e a ausência completa de vegetação original. O grupo do Núcleo de Zoneamento e Risco Ambiental identificou 24 pontos problemáticos, predominantemente a leste do Parque. Um fato alarmante é que essas áreas estão se expandindo ao longo dos anos, principalmente devido à prática de esportes radicais, como ralis e enduros de jeeps e motocicletas. Os veículos ajudam na compactação do solo, favorecendo o aumento do processo erosivo. O risco, como enfatiza o professor, é a expansão desses pequenos desertos a toda a área do Ibitipoca.

O sistema digital permite a superposição dos chamados planos de informação. Dessa forma, reunindo todas as informações obtidas, os pesquisadores obtiveram um mapa que mostra o zoneamento da fragilidade ambiental do Parque do Ibitipoca e arredores. “Observamos que a maior parte das zonas frágeis está concentrada no interior do Parque”, alerta Rocha. Para a elaboração de um plano de manejo, tais informações são fundamentais. Elas permitem, por exemplo, dividir o Parque em várias faixas, cada uma com uma especificidade para visitação. Além de garantir a segurança dos turistas, esse procedimento possibilita a recuperação de áreas atualmente degradadas que, no futuro, após recuperação, poderiam novamente ser abertas à visitação.

Atualmente, a equipe está trabalhando na montagem de um site para disponibilizar os dados levantados a outros pesquisadores. O estudo foi apresentado, ainda, ao Instituto Estadual de Florestas de Minas Gerais (IEF), órgão gestor do Parque e responsável pela implantação do plano de manejo. Na Universidade, a pesquisa continua. Rocha conta que o grupo do Núcleo de Zoneamento está trabalhando, agora, com pesquisadores do curso de Turismo e de Biologia, para detectar, entre outros, o potencial agrícola do solo da região para iniciativas de reflorestamento.

Vanessa Fagundes

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Revista Minas Faz Ciência Nº 22 (jun a ago de 2005)