Isso é Minas, uai!

Pesquisadores da UFMG identificam características típicas do linguajar do povo mineiro


O jeito típico de falar do povo mineiro já foi alvo de comentários jocosos. Não é difícil encontrar a imagem do mineiro matuto, que masca capim enquanto faz construções gramaticais erradas e corta as palavras ao meio. Identificar estereótipos formados pelo senso comum e apontar características genuínas do modo de falar dos mineiros é um dos objetivos da pesquisa “A construção de um dialeto: o ‘mineirês’ belo-horizontino”, coordenada pela lingüista e professora da UFMG Jânia Martins Ramos.

Há mais de 25 anos, a coordenadora dedica-se a estudos sobre as peculiaridades do português, em especial o que é falado em Minas Gerais, e agora pretende levantar e compilar novas informações sobre o tema, incluindo investigações de ordem socio-lingüística e histórico-social. “Decidimos abordar uma questão de interesse científico e, ao mesmo tempo, de interesse das pessoas comuns: a explicitação de um conjunto de traços e construções que seriam típicos do modo de falar do belo-horizontino e, na medida do possível, explicá-los sócio-historicamente”, diz Jânia.

Aprovado no Edital Universal 2006 da FAPEMIG, o projeto está no início, mas, graças à experiência pregressa de seus pesquisadores, já conta com uma série de informações, que serão ampliadas, reunidas e comparadas. Atualmente, fazem parte da equipe seis doutores em Lingüística, dois mestrandos e dois bolsistas de Iniciação Científica.
Segundo Jânia Ramos, a área geográfica de Minas Gerais corresponde a três áreas lingüísticas; ou seja, três tipos de falares: um mineiro, um baiano e um paulista. A fim de comparar características, os pesquisadores realizarão análises em localidades de cada uma dessas áreas. Além de Belo Horizonte, serão analisados dados da cidade histórica de Ouro Preto, de Arceburgo, região sul do Estado, e de duas localidades da microrregião de Montes Claros (Lontra e São João da Ponte), no norte de Minas.

A língua dos índios Mbyá-Guarani, de Aracruz (ES), também será comparada ao dialeto belo-horizontino para identificar possíveis influências. A escolha se deu com base em um trabalho de cooperação que vem sendo desenvolvido por uma equipe do curso de Letras da UFMG com o objetivo de criar uma licenciatura intercultural. “Como se pode ver, o contato com o dialeto belo-horizontino já é uma realidade, e uma necessidade dos índios”, observa Jânia Ramos.

A pesquisa, que vai integrar informações de natureza histórica, sociológica e demográfica, utilizará entrevistas gravadas, registradas digitalmente, e textos datados do século XIX, entre cartas, peças teatrais e documentos. Segundo Jânia Ramos, isso permitirá verificar se os fenômenos lingüísticos identificados na pesquisa já existiam nessa época. As entrevistas terão como informantes pessoas de diferentes níveis de escolaridade (ensinos fundamental, médio e superior) e de faixas etárias também diferentes (de 15 a 25 anos, de 30 a 45 e acima de 65). O objetivo é formar uma amostra da população atual nas localidades selecionadas.

Piadas de internet com o tema “mineirês” também serão utilizadas na pesquisa. “Vamos tomar como objeto de análise científica um conjunto de afirmações do senso comum”, diz a coordenadora do projeto. “Nossos resultados permitirão discernir entre afirmações que, de fato, retratam nosso dialeto e afirmações que nada têm a ver com nosso modo de falar”, adianta. Segundo Jânia, é importante chamar a atenção para a distinção, já reconhecida pelos sociolingüistas, entre o que os falantes realmente dizem e o que acreditam que dizem. “Outra distinção diz respeito à atitude que os usuários têm em relação ao seu próprio modo de falar e ao modo de falar do outro, que pode ser negativa ou positiva, por razões de natureza social”, diz a professora. “Trabalharemos com testes de reação subjetiva, de modo a ter como produto, ainda que parcialmente, o que é o modo de falar dos mineiros e, por outro, o tipo de reação que os mineiros e outros manifestam em relação a esse modo de falar”, explica Jânia.

Análises quantitativas também fazem parte do projeto, utilizando o programa de análise variável Varbrul. “Com base na quantificação, poderemos analisar tendências, verificar se a ocorrência do fenômeno é sistemática, se é residual ou não, qual a forma preferida em cada uma das localidades e verificar o perfil da escolha do fenômeno em análise pelos falantes da comunidade, no eixo do tempo”, explica a coordenadora. “Isso é possível com base no registro escrito produzido por aquela comunidade e também com base na comparação de pessoas de faixas etárias distintas, técnica que recebe o nome de “análise com base no tempo aparente”, complementa.

Características identificadas
Segundo Jânia Ramos, em um estudo prévio, um grupo de 96 estudantes de oitava série, sendo metade de Belo Horizonte e metade de Teixeira de Freitas (BA), foi submetido a um questionário sobre seu modo de falar. Sem necessidade de assinar o nome, os entrevistados responderam a dez perguntas, do tipo “quando você leva um susto, qual é a primeira expressão lingüística que vem à sua boca?”.

Os resultados apontaram que algumas interjeições estão ausentes nas respostas dos belo-horizontinos, embora presentes nas dos baianos, como é o caso do “poxa” e do “o’che”. Outras foram identificadas em ambas as amostras, mas apareceram com mais freqüência no grupo de Belo Horizonte. Foram os casos do “ai”, do “Nossa Senhora”, do “ai, que susto”, do “nossa” e do famoso “uai”. Interjeições como o “Nó”, o “Nu” e o “Minha Nossa” não apareceram nas respostas dos baianos. “Esse estudo nos mostrou que é necessário discutir conceitos de interjeição, frase idiomática e frase exclamativa, cujos limites não são de fácil identificação”, diz Jânia Ramos.

A professora ressalta que o termo “mineirês” tem caráter jocoso, que elevaria o modo de falar dos mineiros a uma outra língua em comparação aos muitos dialetos brasileiros. Segundo ela explica, há uma discussão na literatura lingüística sobre os termos “dialeto” e “falares”. O primeiro, seria formado pela incorporação de expressões de línguas distintas e o segundo, pela expansão da língua comum, que ganha características locais de acordo com as condições geo-humanas, sem a superposição de línguas. “É o termo ‘falares’ o preferido pelos geolingüistas que trataram do modo de falar dos mineiros”, diz. “Em nosso projeto, vamos retomar essa discussão, à luz das discussões recentes sobre as próprias diferenças entre os conceitos de ‘língua’, ‘falares’ e ‘dialeto’, mas, por enquanto, vamos continuar adotando os termos ‘falares’ e ‘dialeto’ indistintamente”, atenta.

A partir de dados transcritos como “mineirês”, colhidos na internet, o grupo de pesquisadores reuniu 35 traços lingüísticos ou classe de fenômenos, a fim de identificar aqueles que devem ser considerados estereótipos e os que podem ser reconhecidos como tipicamente mineiros. Segundo Jânia Ramos, preliminarmente, pode-se simplificar a lista reunida, agrupando-a em apenas cinco categorias de fenômenos: a queda da sílaba final ou inicial (como em “é mês”, em vez de “é mesmo”), o alçamento de vogais (como em “minino”, em vez de “menino”), a queda do “s” e do “r” (como em “mai”, em vez de “mas”, e em “redá”, em vez de “arredar”), a gramaticalização de itens (como em “num” em lugar de não), e outros (como o uso de palavras e interjeições tais como “trem”, “troço” e “uai”).

“Por hipótese assumimos que os fenômenos categorizados estão presentes na fala dos informantes belo-horizontinos sendo, portanto, adequados para identificar o falar mineiro. Esses fenômenos configuram mudanças gramaticais, tendo ocorrido em decorrência de fatores externos de natureza demográfica e econômica”, diz Jânia. Ela identifica a queda da sílaba final como uma das características mais típicas da fala mineira, o que tem sido alvo específico de outra pesquisa em andamento na UFMG. A coordenadora também chama a atenção para o uso do “cê”, uma redução de “você”, que chega a ser usada por 55% do público entrevistado em Belo Horizonte, mas por apenas 19% do público de Ouro Preto. “Uma explicação para essa diferença seria o fato de que a forma ‘cê’, sendo inovadora, seria mais freqüente exatamente naquela comunidade que é mais populosa e agitada, apresentando, por isso, um ritmo de mudança mais acelerado”, analisa.

Jânia Ramos comenta que os resultados obtidos na pesquisa serão divulgados de várias formas, a fim de se tornarem acessíveis ao grande público. O site do projeto será fonte para a consulta de resultados diversos, como textos, análises, gráficos e tabelas. O grupo pretende identificar e listar um conjunto de, no mínimo, dez traços lingüísticos tidos como especificidades do dialeto belo-horizontino, que serão analisados quantitativamente e qualitativamente. Textos sobre os traços especificados, destinados ao público leigo, também serão publicados em jornais ou no site do projeto, que já se encontra em fase final de elaboração.

BOX 1:
PROJETO: A construção de um dialeto:
o mineirês belo-horizontino
MODALIDADE: Edital Universal
COORDENADORA: Jânia Martins Ramos
VALOR: R$ 22.051,26

BOX 2:
Nó! Mas que trem bom, uai!

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Saiba mais sobre algumas expressões

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Trem Segundo Jânia Ramos, no texto “Por que o mineiro fala trem?”, publicado no site “Quem sabe”, da UFMG (www.ufmg.br/quemsabe), Bluteau, em seu dicionário de língua portuguesa de 1712, diz que a palavra “trem” deriva do latim “trabere”, verbo que significa “tirar, ou puxar alguma coisa, arrastar”. De acordo com Jânia, a investigação sobre o uso da palavra chegou ao século XVII, mais precisamente em um sermão de Padre Antônio Vieira, quando ele usou a construção “trem do príncipe” para designar um “agrupamento de pessoas que, munidas de mantimentos, bagagens, etc., acompanham outras pessoas em jornadas geralmente longas”. Em outros textos, como um datado de 1796, a palavra também aparece nesta acepção. A lingüista observa que, de acordo com o mais recente dicionário Houaiss, a partir de uma derivação metonímica, a palavra “trem” passou a significar “objetos levados em viagem, bagagem” ou “conjunto de peças de roupa com que alguém se veste”. Jânia acrescenta que o uso da palavra na acepção de “comboio ferroviário” também é uma derivação. “Assim, o uso do item ‘trem’ no dialeto mineiro, hoje referindo-se a um conjunto de objetos, documenta parte de uma história de mais de trezentos anos”, diz a professora.

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Uai A interjeição uai, uma das mais associadas ao modo de falar dos mineiros, será alvo de um estudo diacrônico da fala da localidade de Nova Lima, onde supostamente a expressão teve origem.

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Nó! Em um estudo anterior, analisou-se a interjeição “nó!”, bastante utilizada pelo povo mineiro. Segundo foi identificado, pode-se supor que “nó!” constitui uma forma reduzida de “nossa”, que por sua vez constitui uma redução da expressão “Nossa Senhora!”, em princípio uma evocação católica, mas que hoje é uma simples expressão de espanto, vazia de conteúdo referencial. “Tal processo, conhecido como gramaticalização, é comum em diferentes línguas, fazendo com que expressões percam substância fônica e/ou conteúdo semântico”, diz Jânia Ramos.

Ariadne Lima

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Revista Minas Faz Ciência Nº 28 (Dez de 2006 a Fev de 2007)