Arqueologia

A fascinante pré-história de Minas Gerais



Prof. André Prous, pesquisador do Museu de História Natural/UFMG
A "raça Lagoa Santa", com populações de características físicas parecidas com os grupos negróides – distinta e mais antiga do que a dos índios encontrados pelos portugueses – e um dos mais antigos cemitérios das Américas são alguns dos achados que tornam a pré-história de Minas Gerais uma das mais fascinantes para a Arqueologia brasileira e mundial. A confirmação da contemporaneidade entre o homem pré-histórico e alguns dos animais extintos do pleistocênico e, ainda, a existência de mais de 500 sítios com pinturas rupestres em diferentes regiões são outros exemplos.

Apesar dessas importantes descobertas, a Arqueologia no estado conta ainda com um vasto campo para pesquisas, que podem reservar grandes surpresas. O painel que se forma é ainda incompleto, como peças de um intricado quebra-cabeças à espera de ser montado. Até 1969, pensava-se que o homem havia penetrado tardiamente no território brasileiro.


Lapa do Dragão - Montalvânia - MG

As descobertas posteriores e os novos processos de datação mostraram que a ocupação humana nesse vasto território, antes da chegada dos europeus, em 1500, remonta há milhares de anos. O caminho e as modalidades da entrada dos homens pré-históricos ainda são discutidos.

As populações mais antigas deixaram para a posteridade as marcas de sua cultura em peças de pedra ou osso, fogueiras extintas, cemitérios, pequenos silos com sementes e pinturas rupestres. Ao analisar esses achados, os arqueólogos buscam hipóteses sobre a origem desses povos, bem como obter informações sobre o seu modo de vida e as suas diferentes tradições. Minas Gerais pode ser uma das chaves para se desvendar o enigma.


Sepultamento pré-histórico encontrado no silo de uma aldeia às margens do rio São Francisco no Município de Itacarambi

Em Minas Gerais, o estudo do período pré-histórico se iniciou pelo dinamarquês Peter W. Lund, basicamente interessado em fósseis de animais extintos. No entanto, em 1843, escavando a Gruta do Sumidouro, próxima a Lagoa Santa/MG, encontrou vestígios de grandes animais extintos misturados com restos humanos. Daí levantou sem muito alarde a hipótese, inimaginável para a época, de que os humanos tenham sido contemporâneos de alguns dos mamíferos já extintos. A hipótese foi confirmada mais tarde em outros pontos do globo e validada nos últimos 30 anos, inclusive em Minas Gerais, onde uma preguiça terrícola gigante, com cerca de três metros de comprimento, obteve recentemente datação de 9.700 anos, idade compatível com a presença dos primeiros povoadores.

Entre os anos 20 e os anos 70, arqueólogos franceses, brasileiros e americanos encontraram aqui muitos achados, muitas vezes adotando metodologias diferentes para interpretá-los. O avanço mais significativo ocorreu nos anos 70, quando uma missão franco-brasileira – que incluía entre os seus membros o arqueólogo André Prous – seguiu a trilha deixada por Lund no Centro Mineiro. Prous constatou que o sítio arqueológico de Santana do Riacho, na Serra do Cipó, apresenta um dos cemitérios mais antigos das Américas, com idade entre 8.200 e mais de 10 mil anos. Próximo dali, no sítio Lapa Vermelha, em Lagoa Santa, a equipe dirigida por A. Laming-Emperaire encontrou um esqueleto da raça Lagoa Santa, datado em cerca de 11 mil anos. Os "homens" de Lagoa Santa são uma população muito homogênea, com feições bastante peculiares. Achados semelhantes foram registrados também no Estado da Bahia e mesmo na Colômbia. Segundo a teoria recente de alguns antropólogos, seriam aparentados aos ancestrais das populações australianas, que teriam habitado a Ásia continental e migrado tanto para o norte (Beríngia e América) quanto para o sul (Austrália), antes de serem substituídos na Ásia pelas atuais raças amarelas.

No final dos anos 70, a equipe de André Prous, um dos principais estudiosos da pré-história brasileira e titular do setor de Arqueologia do Museu de História Natural da UFMG, passou a dedicar-se à pesquisa no Alto-Médio São Francisco, em Minas Gerais, divisa com a Bahia. Os estudos se concentram nos municípios de Januária, Montalvânia, Itacarambi e Juvenília. As pesquisas nos abrigos calcários da região evidenciam uma ocupação inicial entre 11 mil e 12 mil anos. Um dos sítios mais bem estudados foi o de Boquete, em Januária, no canyon do Rio Peruaçu, afluente da margem esquerda do Rrio São Francisco, cujas escavações se iniciaram em 1981 e foram concluídas em 1998.

Mais recentemente, arqueólogos formados no setor de Arqueologia passaram a dedicar-se à pré-história do Alto São Francisco, abrangendo especialmente os municípios de Pains e Arcos. Por outro lado, há três anos, Prous investiga grupos tupi-guarani na região do Vale do Rio Doce e em outras localidades. "Nosso trabalho se concentra nos aspectos biológicos, na esperança de vida, nas doenças, na alimentação, na ocupação do território, na tecnologia e no mundo simbólico das populações pré-históricas", sintetiza Prous.

Culturas e Gerações

Nas diferentes localidades, a equipe do Museu de História Natural promove o levantamento das pinturas (grafismos) dos sítios arqueológicos, classificando o que cada grupo fazia, as suas tradições e estilos, ao longo de milhares de anos.


Lapa do Rezar, em Januária/MG

Em Lagoa Santa, por exemplo, algumas tradições lembram trabalhos semelhantes aos encontrados no Estado do Paraná e, outras, a grafismos realizados em épocas mais recentes no Nordeste ou no Mato Grosso. "As populações tinham redes de contato, de integração e de circulação de matérias-primas e de troca de idéias", explica Prous. Ele afirma que todo o processo era dinâmico e recebia a influência das diferentes culturas e gerações, o que torna qualquer generalização sobre os grupos duvidosa.

Embora conte com uma pequena equipe de arqueólogos, o Museu de História Natural da UFMG é referência nacional e internacional em arte rupestre e em tecnologia da pré-história. "Estamos fazendo um trabalho pioneiro, pela metodologia de estudo e pela elaboração de um quadro de referência cronológica sobre a evolução da pré-história no Brasil Central", diz o arqueólogo. Apesar das conquistas, dificuldades como a formação de equipes e a escassez de recursos para a conservação de materiais e para as pesquisas – que, no entanto, recebem o decidido apoio da Fapemig -, ainda tornam a arqueologia mineira acanhada frente ao desafio que tem pela frente. Diante desse quadro, apenas 1% dos municípios mineiros estão razoavelmente estudados e a pré-história tropical ainda é pouco conhecida. "Não chegamos ao nível de síntese, só de coleta de informações dentro de um quadro interpretativo provisório", reconhece.

No entanto, o pesquisador acredita que a Arqueologia mineira pode receber uma grande contribuição se as prefeituras onde existem sítios aproveitarem as leis de incentivos fiscais para a sua preservação e pesquisa. Por outro lado, ele defende a criação de institutos de pesquisa arqueológicos com a participação de profissionais pluridisciplinares, como pesquisadores de Ciências Biológicas, da terra e do homem.

Maravilhas da Arte Rupestre

As formas gráficas e temáticas de pinturas rupestres compartilhadas por populações de diferentes regiões servem para definir tradições arqueológicas. As semelhanças nos grafismos evidenciam influências culturais entre grupos, mesmo distantes um do outro. O significado das pinturas é deixado em segundo plano, tendo em vista a subjetividade que acompanha qualquer interpretação. As tradições podem aparecer sobrepostas, dependendo da ocupação do território na época. Pigmentos minerais garantiam cores duráveis. O vermelho/laranja e o amarelo eram obtidos do óxido de ferro. O branco está associado à calcita. O preto vem do manganês ou do carvão.

Em Minas Gerais existem três grandes tradições de arte rupestre, segundo a arqueóloga Lilian Panachuk. Uma delas é a Tradição Planalto, em Lagoa Santa e na Serra do Espinhaço (Botumirim, Conceição do Mato Dentro, Diamantina, Santana do Riacho, Serra do Cabral e Serra do Cipó), marcada pela prevalência de figuras de animais monocrômicos, principalmente cervídeos e peixes, embora apresente ainda, em certas regiões, alguns grafismos geométricos e antropomorfos. A cor preferida era o vermelho, mas empregavam também o branco, o amarelo e o preto. As figuras dos animais são desproporcionais em relação ao tamanho dos homens, sempre retratados muito menores em situações de caça, e de forma mais simples. Um dos sítios típicos dessa tradição é o de Santana do Riacho, com mais de duas mil pinturas rupestres realizadas entre quatro mil e oito mil anos.

Já a Tradição São Francisco tem seu foco principal em Minas, Goiás e na Bahia. Essa tradição é encontrada ao longo do Vale do São Francisco, com pequenas variações. As figuras são geométricas, de grande variedade, muito coloridas e localizadas em locais bem visíveis, como para enfeitar a paisagem. Alguns painéis alcançam 18 metros de altura. Além das figuras utilizarem duas ou mais cores, aproveitam a própria cor do relevo para compor o desenho. Uma das figuras mais recentes dessa tradição, na Lapa do Veado, foi datada em 2,8 mil anos.


Lapa da Posse Grande, em Pains/MG

As pinturas do Alto São Francisco (Arcos, Doresópolis e Pains) talvez representem uma transição entre as duas tradições anteriores. Os temas são diferentes, regionais, mas a forma de tratamento lembra as outras tradições. Utilizavam cores distintas para contornar e preencher os desenhos.

Outras tradições também estão presentes em Minas. São exemplos disso a Tradição Nordeste, cujo foco é no Piauí e no Rio Grande do Norte, mas que alcança o norte do Estado, e a unidade estilística Piolho de Urubu, em Januária e Montalvânia. Nesses municípios, ainda existem outras formas estilísticas. Em Januária, a unidade estilística Desenhos, com gravuras zoomorfas muito pequenas. Em Montalvânia, especialmente no Vale do Rio Cocha, além de pinturas antropomórficas e geométricas, grandes conjuntos de gravuras em baixo relevo, realizadas por picoteamento com cinzel, apresentam figurações humanas e representações de armas.

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COMO ERA A VIDA ANTIGAMENTE

Os homens da pré-história mineira não moravam em cavernas, apenas aproveitavam casualmente as suas partes abrigadas, porém iluminadas, para se proteger das chuvas
ou do sol quente. Esses abrigos eram específicos para rituais, peregrinações, moradias temporárias em excursões de caça, execução de pinturas e sepultamento, esclarece o arqueólogo Gilmar P. Henriques Júnior. Os locais planos, protegidos das enchentes e
próximos a rios tornaram-se os prediletos para o estabelecimento de aldeias de horticultores. Em zonas mais frias, o sul de Minas e o Alto São Francisco (Pains e Arcos),
faziam casas subterrâneas. Escavavam o solo a três metros de profundidade, abrindo
valas de até 20 metros de diâmetro, e recobriam o local com um teto.

Nos períodos mais remotos, a subsistência era garantida basicamente pela caça, a
pesca e a coleta. Com ossos, faziam agulhas e anzóis. Em Lagoa Santa, as primeiras
lâminas de machado polidas aparecem há nove mil anos. Artefatos de
pedra lascada como raspadores, plainas e facas eram utilizados para se trabalhar
madeiras como a aroeira e o pau-ferro. As flechas tanto podiam ser
de pedra lascada quanto de madeira. Os caçadores utilizavam propulsores
de lanças. O fogo era obtido pela fricção de madeiras duras. Pouca gente
ultrapassava os 45 anos, devido a problemas nutritivos e ao esforço nos trabalhos.

Entre dez mil e dois mil anos atrás, o número de sítios arqueológicos aumentou consideravelmente. Por volta de quatro mil anos, há indícios de aparecimento de cultivo
de vegetais, especialmente o milho. A partir de dois mil anos atrás, nota-se maior
presença e diversificação da cerâmica. A argila era modelada com as mãos e depois
queimada a céu aberto (não utilizavam fornos). A cerâmica reflete três principais
tradições. A Una, inicialmente identificada no Rio de Janeiro, que foi difundida em todo
o Vale do São Francisco, a Aratu-Sapucai, encontrada em Minas Gerais e na Bahia,
e a Tupi-guarani, presente em boa parte do território brasileiro fora da Amazônia e,
em Minas Gerais, particularmente bem representada no Vale do Rio Doce.

Há aproximadamente dois mil anos, parte dos agrupamentos humanos passou por uma
revolução tecnológica, aumentando a sua dependência da agricultura. Objetos polidos
eram utilizados para se trabalhar vegetais, como pilãos para socar milho e mandioca,
e surgiram novos tipos de machado para cortar árvores. Cachimbos de cerâmica
atestam o uso do fumo. Fusos eram usados para tecer o algodão.

Nos abrigos do norte mineiro, o clima seco ajudou a conservar materiais orgânicos; por isso encontram-se silos para a armazenagem de mandioca, milho e urucum. Os vestígios vegetais, importantes hoje para os geneticistas entenderem a evolução das plantas, foram encontrados no Vale do Peruaçu (principalmente no sítio do Boquete, o mais estudado), no Norte de Minas,
e no sítio Santana do Riacho, na Serra do Cipó, onde existem trançados com oito mil anos.
No Vale do Peruaçu, segundo a arqueobotânica Eunice Maria Tavares Resende, existe
maior preservação, variedade e quantidade de vestígios vegetais. Castanhas de palmeiras
eram consumidas, bem como espécies do cerrado ou de matas, como chichá, cagaita,
jatobá, umbu, cancanção, pequi, pitanga, goiaba, jabuticaba e cajui.

O genipapo e o urucum eram consumidos ou utilizados para a produção de tintas.
O primeiro garantia a cor preta e, o segundo, tonalidades de vermelho ou amarelo.

Com a horticultura, a dieta passou a ser reforçada com mandioca, feijão, milho, abóbora, amendoim, pimentão e batata. Os Una provavelmente dominavam a técnica de fabricação de farinha, como atestam as pinturas rupestres que representam tipitis. O consumo de carboidratos aumentava os problemas dentários. Frutos duros como o cancanção eram colocados próximos ao fogo para fragilizar a casca. Em seguida, "quebra-cocos" (bigornas de pedra) liberavam os frutos. Cascas de coquinhos serviam de combustível, fornecendo ótimas brasas. Pequenos silos de armazenagem, enterrados e cobertos de cinza para evitar insetos e roedores, preservavam sementes desidratadas, reservadas para o plantio. Adotavam medicamentos como resina de angico e aproveitavam a resina de jatobá como cola para fortalecer a junção entre a pedra polida e o cabo do machado de madeira. Faziam cordas e trançados aproveitando embiras e palhas de milho. Sementes de capim enfeitavam colares.
Nas culturas Sapucai e Tupi-guarani, sepultamentos, em grandes urnas funerárias, passaram a ser praticados. Armas e potes, entre outras oferendas, acompanhavam o morto.

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Revista Minas Faz Ciência Nº 11 (jun a ago de 2002)