Pedra São Tomé

Mineradores aprendem a explorar o quartzito e a preservar o meio ambiente


Quem não conhece a pedra São Tomé? O quartzito branco, amarelo ou rosa é o cartão-postal da mística São Thomé das Letras, ao Sul de Minas Gerais. A mineração é a principal atividade da região e gera emprego para grande parte da população ativa e, ainda, para centenas de moradores das cidades vizinhas. O potencial econômico do quartzito foi descoberto no início dos anos 50 e a exploração das jazidas da Serra de São Thomé se intensificou na década de 70. Hoje, a pedra é exportada para a Europa e o Japão.

Mais de 40 anos de exploração geraram muitos empregos e impostos para o Estado, mas também muita destruição. O trabalho desordenado e sem fiscalização fez com que manchas brancas se espalhassem no verde das montanhas. Pilhas gigantescas de entulho foram deixadas nas pedreiras, pois apenas 8% do material explorado são aproveitados, os outros 92% são resíduos. Parte desse entulho foi arrastada pelas chuvas e provocou o assoreamento dos rios. Alguns deles, nem existem mais.

A situação começou a mudar em 1996, quando uma equipe de pesquisadores mineiros iniciou um projeto de conscientização dos mineradores e adequação ambiental da atividade de extração da pedra. "O projeto vem conferindo um tom de modernidade às mineradoras. Elas iniciaram a transição da lavra (lugar onde se extrai o quartzito) artesanal para uma mineradora propriamente dita", conta a engenheira química da Fundação Estadual do Meio Ambiente (Feam) e coordenadora do projeto, Eleonora Deschamps. A pesquisa tem o apoio da FAPEMIG e do governo alemão/GTZ (Deutsche Gesellschaft für Technische Zusammenarbeit), através do programa de cooperação entre o Brasil e a Alemanha. Os trabalhos são desenvolvidos em parceria com os departamentos de Engenharia de Minas e de Engenharia Sanitária e Ambiental da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais) e com o Centro de Desenvolvimento de Tecnologia Nuclear (CDTN/CNEN).

Para minimizar os impactos da atividade, a equipe formada por biólogos, geólogos e engenheiros químicos, de minas e civil dividiu o projeto em quatro áreas de atuação. Eles testaram novas alternativas para a lavra, para a disposição do material estéril (sem valor comercial), para a vegetação das pilhas e para o uso da pedra. Mas, antes de iniciar o trabalho, a equipe comprovou que a maior responsável pela agressão ao meio ambiente era a dificuldade de recuperação na etapa de extração: apenas 7,4% são recuperados.


Eleonora Deschamps, pesquisadora da Feam

Uma das alternativas encontradas pelos pesquisadores para aumentar o índice de recuperação das frentes de lavras foi mudar o preparo da explosão, que é a primeira etapa do processo de extração. As 40 mineradoras da região realizavam explosões nas lavras, com grande quantidade de dinamites, durante todo o dia. Hoje, existem normas que minimizam o estrago causado por essas explosões. Os horários são determinados e a disposição dos explosivos foi reformulada. Os pesquisadores descobriram que quanto menor o espaço entre as furações que recebem explosivos (dinamite), maior o impacto na pedra. "Ela pode sofrer microfissuras, após a explosão, e perder o valor comercial. Ou seja, em vez de ser vendida, essa pedra vai parar na pilha de resíduos", explica a pesquisadora Eleonora.O projeto pretende, ainda, substituir o explosivo por outro que provoque menos impacto físico, tais como o uso de cunhas metálicas e/ou cimento expansivo, que têm a vantagem adicional de não provocarem impacto auditivo.

As pilhas móveis são outro grande problema. Elas são formadas com os resíduos gerados na extração e são amontoadas nas lavras, sem nenhum planejamento. Muitas vezes, elas têm que ser removidas porque se encontram com o veio da lavra. Com a orientação dos geólogos, isso não acontece mais. Antes de formar a pilha, eles fazem um estudo da área e descobrem qual direção os mineradores devem seguir. Além disso, a movimentação da pilha impede que ela se recupere e receba vegetação. Mas, se os resíduos forem dispostos adequadamente, as pilhas têm todas as chances de devolver à paisagem as saudosas montanhas verdes.


Pilha móvel avançando em direção ao alojamento da mineração

Hoje, as pilhas móveis são minoria. Os mineradores depositam os resíduos, segundo as normas ambientais. As pilhas são colocadas a uma distância mínima de 30m dos cursos d’água, para evitar o assoreamento dos rios, e os resíduos são dispostos em bermas (degraus). Depois de conformadas, as pilhas são vegetadas. A candeia foi o destaque dos ensaios de reabilitação vegetal, realizados pela equipe, indicando fácil adaptação ao ambiente agressivo. A planta rupestre é nativa de São Thomé e tem a vantagem de devolver o aspecto natural à região. Basta semear a candeia sobre as pilhas que, rapidamente, ela cresce e se espalha, sem a necessidade de adicionar adubo e mesmo terra, uma vez que a camada de solo na região é de apenas alguns centímetros. Os experimentos no campo mostraram que a candeia não exige terra nem água e sobrevive em solo arenoso e cheio de pedras.


A pilha conformada.

Do lixo para a construção civil

Conformar as pilhas de material estéril ou resíduo foi uma grande conquista, mas os pesquisadores sabiam que algo deveria ser feito para diminuir a quantidade desse material. Afinal, cada caminhão de pedra retirado da lavra deixava outros dez de entulho. Desse entulho, novas aplicações começaram a surgir. Até 1995, o mercado valorizava apenas a pedra retangular ou quadrada. "Havia seis medidas padronizadas", conta o diretor-geral da Sales Andrade Indústria e Comércio de Pedras, Alaor Andrade. Hoje, a empresa vende pedra São Tomé, em cortes variados: mosaicos ou pavês, filetes, tijolos, cavacos (pedras pequenas e irregulares), além dos tradicionais quadrados e retângulos. A maior parte é destinada ao mercado externo, que é muito menos exigente.

O cliente pode escolher, ainda, a pedra polida ou natural, nas cores branca, amarela ou rosa. A pedra São Tomé polida tem uma beleza admirável e é forte concorrente do mármore e do granito. É ideal para bancadas e tampos de mesa. A pedra natural é perfeita em pisos ao redor de piscinas. Além de bonita, ela é antitérmica (não esquenta ao tomar sol) e antiderrapante, ou seja, não escorrega. Essas características atraem os europeus, já que naquele continente a temperatura varia muito. A pedra São Tomé também pode ser usada em muros, passeios, fachadas, na decoração interna ou onde a imaginação alcançar. O leque de opções inclui, ainda, a pedra envelhecida. Ela tem menos brilho que a pedra natural e é apreciada por muitas pessoas. "As aplicações estão ficando cada vez mais sofisticadas", diz o empresário.

Em 2001, a empresa iniciou os testes de uma nova tecnologia para colorir a pedra, já que o quartzito rosa é raro e custa 50% mais que os outros. É também considerado o mais bonito e sua procura é sempre maior que a oferta. A pedra branca ou amarela é levada ao forno em uma temperatura de 450ºC. Quando resfriada, fica rosa. Não é à toa que o empresário se diz feliz com os resultados, somente os especialistas são capazes de diferenciar o quartzito aquecido e o colorido pela natureza.


Os novos formatos e aplicações do quartzito de São Tomé não param por aí. A pesquisadora Eleonora esteve em Bremem, na Alemanha, para acompanhar os estudos de caracterização tecnológica de amostras do quartzito brasileiro. Os ensaios realizados nos laboratórios do MPA (Material Prüfungsanstalt), um centro de pesquisa para aproveitamento de resíduos, avaliaram o potencial de aproveitamento do quartzito em outras rotas de mercado. Os resultados preliminares apontaram o uso da São Tomé como base de estrada ou agregada ao asfalto.

No Brasil, a nova alternativa de utilização do resíduo foi colocada em prática. Uma estação piloto de cominuição (redução de tamanho) e classificação de tamanho, através de peneiras, foi instalada em uma das mineradoras da região. O equipamento tritura os resíduos da pedra até transformá-los em brita e areia, que podem ser usados na construção civil. As aplicações são testadas por pesquisadores da UFMG. "São materiais de pouco valor agregado, mas como a tendência é aumentar a utilização da pedra também em volume, serão importantes para diminuir a quantidade de resíduos deixados nas pedreiras", ressalta o engenheiro de minas Wilson Barreto, consultor do projeto.

A Prefeitura Municipal de São Thomé das Letras não podia deixar de contribuir com a principal atividade econômica da cidade. No final do ano passado, o prefeito Luiz Paranaíba aprovou a lei de incentivo ao uso do quartzito. Os moradores que revestirem suas casas com a pedra São Tomé serão isentos do IPTU (Imposto Predial Territorial Urbano) de 2002. A Prefeitura também tem participação ativa nos workshops que reúnem pesquisadores e os mineradores da região. Nestes eventos, organizados pelas instituições envolvidas no projeto de adequação ambiental da mineração, são divulgados os resultados do trabalho e as novas alternativas encontradas. Até março de 2002, foram realizados cinco workshops que buscam, ainda, uma maior integração das mineradoras.

\r\n


Bons resultados

O projeto é um marco na história da mineração da pedra São Tomé. Os mineradores começaram a perceber que, com a adequação ambiental da atividade, eles só têm a ganhar. Além de prolongar a vida útil das pedreiras, o novo modelo de extração do quartzito aumenta a produtividade e diversifica o mercado. O presidente da Coopedra (Cooperativa dos Extratores de Pedra do Patrimônio de São Thomé das Letras), Tomé Laudelino Rosa, garante que todos os 87 cooperados seguem, rigorosamente, as orientações dos pesquisadores e técnicos da Feam. "A nossa produção aumentou cerca de 30% e, com isso, conseguimos baratear o custo e comprar equipamentos novos, como uma pá carregadeira e explosivos. Tudo legalizado", diz o presidente. Ele participa de todos os workshops e fóruns promovidos pelos pesquisadores e se orgulha ao dizer que a cooperativa já tem uma pilha vegetada. "Trabalho na mineração desde os oito anos de idade e não havia nenhum planejamento", conta.

Em junho deste ano, será realizado o workshop de encerramento do projeto. "Isso não significa que serão encerrados os trabalhos da Feam. Os técnicos continuarão vistoriando a região a cada dois meses", avisa a pesquisadora Eleonora. Na ocasião, será lançado um livro, editado com recursos do governo alemão, com todos os conhecimentos adquiridos durante a pesquisa. Segundo a pesquisadora, o livro é uma espécie de manual e reúne informações inéditas sobre a mineração da pedra São Tomé.

\r\n

Revista Minas Faz Ciência Nº 10 (mar a mai de 2002)