Gastrite, úlcera e câncer no estômago

Pesquisa revela a relação entre essas doenças e a bactéria H. pylori


Certamente você já ouviu falar que determinados alimentos, ficar muito tempo sem comer e até a ansiedade podem causar gastrite ou úlcera. Isso não é verdade e sim um mito sobre as doenças estomacais, segundo a pesquisadora Dulciene Queiroz, do Departamento de Propedêutica Complementar da Faculdade de Medicina da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais), que desenvolve pesquisas sobre a origem da gastrite, da úlcera e do câncer gástrico desde 1986.

O trabalho da Prof. Dulciene é um dos mais respeitados do País e os resultados de suas pesquisas, publicados em revistas científicas indexadas, são referência para pesquisadores do mundo inteiro.

De acordo com as pesquisas coordenadas pela médica, foi constatado que a alimentação e o estresse não colaboram para o surgimento da gastrite ou de outra doença gástrica. A grande vilã da história é uma bactéria, a Helicobacter pylori, presente em todos os casos de gastrite. A doença é uma inflamação microscópica da mucosa do estômago, provocada pela bactéria, que é a única que consegue sobreviver no estômago, e é transmitida entre pessoas. "O estômago é suco gástrico (ácido clorídrico) puro, com pH variando entre um e dois. Não é o café, refrigerante ou a fritura que vão fazer mal ao estômago", explica a pesquisadora, que afirma também que o estresse, sozinho, não causa gastrite ou outra doença do estômago.


Laboratório de pesquisa em Bacteriologia, coordenado pela Prof. Dulciene Queiroz
"O estresse altera a resposta imunológica e quebra o equilíbrio do organismo. A pessoa pode estar completamente estressada, mas, se ela não tiver a bactéria, nunca vai ter gastrite ou úlcera", completa.

A Helicobacter pylori foi descoberta em 1982, pelos pesquisadores Marshall e Warren. Até então, ninguém acreditava que algum ser vivo pudesse colonizar o estômago, que é um ambiente muito ácido. Em Belo Horizonte, os trabalhos começaram no Laboratório de Pesquisa em Bacteriologia da Faculdade de Medicina da UFMG em 1986, coordenados pela Professora Dulciene. Em 1987, a equipe desenvolveu um novo meio de cultura da Helicobacter pylori, que é utilizado por pesquisadores em todo o mundo. A nova técnica recebeu o nome de Belo Horizonte, uma bela forma de homenagear a cidade, que ganhou destaque na comunidade científica internacional.


Bactéria H. pylori isolada no fígado, descoberta recente e inédita
As pesquisas com a bactéria foram iniciadas junto com o desenvolvimento da Biologia Molecular e, por isso, foram feitas com técnicas avançadas de microbiologia molecular, o que, sem dúvida, garante mais precisão ao trabalho. A Helicobacter pylori foi a sexta bactéria a ter o código genético totalmente seqüenciado. Isso possibilitou a identificação dos seus indicadores de virulência, como o gene cagA, que provoca o câncer de estômago em adultos e úlcera em crianças, e o gene vacA, que provoca úlceras. O resultado desse trabalho, realizado com o apoio da FAPEMIG, foi publicado, em 1998, na Publication of the International Union Against Câncer.

Formas de contaminação


Meio de cultura “Belo Horizonte”
A bactéria Helicobacter pylori pode ser transmitida entre pessoas. Em um trabalho realizado pela equipe do Laboratório de Pesquisa em Bacteriologia com 700 moradores de Melquíades, distrito de Governador Valadares, na região leste de Minas Gerais, ficou constatado que o maior índice de contaminação estava entre as crianças com até oito anos de idade. "Normalmente, a contaminação se dá quando há contato muito próximo. É mais provável que um bebê seja contaminado pela mãe ou pelos irmãos do que pelo pai", explica a professora Dulciene.

Os resultados das pesquisas em Belo Horizonte revelaram que 60% da população são portadores da Helicobacter pylori.


Fatores integrados que contribuem para o desenvolvimento da doença: ambiente, fator de virulência da bactéria e genética do hospedeiro
A maioria dessas pessoas vai conviver com a bactéria por toda a vida e não vai desenvolver nenhuma doença, já que a gastrite não provoca sintomas. Segundo a professora Dulciene Queiroz, a gastrite pode estar associada a outras doenças gástricas como a úlcera e o câncer, que podem se desenvolver apenas pela interação de três fatores: a existência da bactéria no estômago do indivíduo, sua característica genética e o ambiente no qual vive. "Dos 60% de indivíduos infectados e que moram em Belo Horizonte, apenas 1% terá chances de desenvolver um câncer gástrico e 10 a 15% têm a possibilidade de desenvolver uma úlcera", explica. Além dos casos de úlcera estomacal, 95% dos casos de úlcera do duodeno estão associados com a Helicobacter pylori.

No Brasil, é feito o tratamento profilático, para diminuir o número de pessoas portadoras da bactéria.

O tratamento para acabar com a Helicobacter pylori é rápido. São utilizados antibióticos associados que, num período de sete a quinze dias, acabam com a bactéria. "Vamos ter a diminuição dos casos de úlcera e de câncer de estômago, que é muito freqüente no Brasil, devido à medida para diminuir o número de pessoas infectadas pela Helicobacter pylori", completa.

A mais recente descoberta da equipe do Laboratório de Microbiologia é o isolamento da bactéria no fígado humano, que foi publicado, em outubro, no Gastroenterology Journal of the American Association, a mais importante publicação de gastroenterologia do mundo. Essa é mais uma pesquisa que está começando agora e um caminho para a descoberta de cura de doenças hepáticas. \r\n

COMO O ESTÔMAGO FUNCIONA?

Os alimentos começam a ser digeridos quando passam pela boca e esôfago,
antes de chegarem ao estômago, que tem um volume de 1,5 l. Quando estão
no estômago, os alimentos são misturados ao suco gástrico, que ativa as
enzimas digestivas da proteína e outros componentes. 

O QUE É SUCO GÁSTRICO?

É uma secreção produzida pelas células da mucosa do estômago. Entre os seus
componentes está o ácido clorídrico (HCl), que desencadeia o processo de
digestão dos alimentos. Tem pH ácido, variando entre um e dois. A escala de pH varia de um a 14 (de um a seis o pH é ácido; pH sete é neutro; e de oito a 14 o pH é básico ou alcalino).

Gastrite: infecção microscópica da mucosa estomacal. É uma "irritação",
provocada pela Helicobacter pylori.

Úlcera: ferimentos nas paredes do estômago.

Câncer gástrico: reprodução descontrolada de células estomacais.

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Revista Minas Faz Ciência Nº 9 (dez de 2001 a fev de 2002)