Leishmaniose

Ministério da Saúde autoriza a produção da vacina pioneira no mundo


A "Vacina Terapêutica para Leishmaniose", desenvolvida pelo Prof. Wilson Mayrink, pesquisador do Departamento de Parasitologia da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais), recebeu o registro do Ministério da Saúde e, agora, pode ser comercializada no Brasil. O registro 1.0574.0047.001-1, solicitado pela Biobrás – empresa que vai produzi-la em escala industrial – em outubro de 1999 , foi publicado no Diário Oficial da União, no dia 31 de outubro. O Prof. Mayrink trabalha há 40 anos na busca da cura e da prevenção da doença e se diz realizado com a autorização do Ministério: "Fora a família, foi o maior prêmio da minha vida". A história da carreira do pesquisador é vinculada à vacina e já foi tema de matéria da Minas Faz Ciência no. 2, disponível na Internet: http://revista.fapemig.br/2).

A vacina não tem efeitos colaterais nem contra-indicações, afirmam tanto o pesquisador como o diretor de Biotecnologia da Biobrás, Luciano Vilela. Ao contrário do medicamento hoje adotado no País, o Antimoniato N-Metil Glucamina, que apresenta restrições para gestantes, idosos, cardíacos, recém-nascidos, diabéticos e portadores de doenças imunodepressoras, a vacina terapêutica pode ser usada no tratamento de qualquer pessoa, até mesmo desses "pacientes especiais".


Em casos de pacientes que não tenham restrições ao medicamento adotado, a indicação é fazer o tratamento associado, com a redução de até 50% na dosagem do Antimoniato. O tratamento apenas com a vacina terapêutica é mais demorado, mas vale a pena. Para se ter uma idéia, em 2000, o Ministério da Saúde registrou 14 mortes causadas pelo uso do antimônio e, em 2001, o número aumentou para 17.

Há cerca de 10 anos, a Biobrás recebeu a primeira autorização do Ministério da Saúde para a produção em escala laboratorial, necessária aos testes exigidos. Desde então, mais de 30 mil pessoas usaram a vacina com o acompanhamento do Prof. Mayrink.

A vacina não tem patente, é de domínio público, já que o pesquisador teve artigos publicados sobre esse trabalho em revistas científicas internacionais, como a Transation, especializada em Medicina Tropical. "Mas a Biobrás detém a propriedade intelectual da vacina por ter desenvolvido o método de produção em escala industrial por fermentação contínua da Leishmania amazonensis", afirma Luciano Vilela.

Até agora, a indústria bioquímica investiu cerca de R$ 1 milhão nesse projeto.

O diretor-presidente da Biobrás, Roberto Carvalho, diz que "sob o aspecto da cidadania, é importante que iniciemos a produção o mais rápido possível". Entretanto, sob o ponto de vista empresarial, a comercialização só será possível a partir de 2003, segundo Carvalho, porque há necessidade de fazer adequações nas instalações industriais e organizar a rede de distribuição. Apenas para atender à demanda interna, Luciano Vilela afirma que serão necessários 700 mil litros/ano da vacina. "Não resta dúvida que o registro já é um passo gigantesco", ele afirma.

O mapa da doença


O cientista Wilson Mayrink”: realização após 40 anos de trabalho.

A doença é característica de países pobres. Brasil, Bangladesh, Índia, Peru, Irã, Arábia Saudita, Síria e alguns países da África são os mais afetados. Zonas rurais, favelas e regiões carentes de saneamento básico são as áreas mais propícias para a contaminação da leishmaniose. A doença é causada por parasitas do gênero Leishmania, protozoários da família Trypanossomatidae que se desenvolvem no trato alimentar de um inseto hospedeiro ou vivem e se multiplicam no interior das células de um hospedeiro intermediário mamífero. A transmissão é feita pela picada do inseto infectado. A doença pode levar de três meses até vários anos para se manifestar. Cerca de 350 milhões de pessoas fazem parte da população de risco. A estimativa da OMS (Organização Mundial da Saúde) é de que 12 milhões de pessoas sejam contaminadas no mundo por ano. No Brasil, são cerca de 35 mil novos casos/ano.

Em Minas Gerais, pelo menos 401 dos 856 municípios já registraram a ocorrência de transmissão de Leishmaniose Tegumentar Americana (LTA). Segundo a coordenadora de Zoonoses da Secretaria de Estado da Saúde (SES/MG), Simone Marrocos, o número de casos notificados teve um aumento significativo nos últimos dez anos. Mesmo assim, o órgão tem trabalhado para proporcionar atendimento médico a 100% dos portadores dessa dermatose, de forma descentralizada.

A "Vacina Terapêutica para a Leishmaniose" faz parte da rotina dos pacientes atendidos no Laboratório de Leishmaniose do posto descentralizado de Caratinga (Diretoria Regional de Saúde de Governador Valadares - SES/MG). Há mais de trinta anos, eles são atendidos pessoalmente pelo Prof. Mayrink, conta Simone. Ela diz que a vacina foi utilizada em municípios de diversas regiões de Minas Gerais, como Araçuaí, Virgem da Lapa, Francisco Badaró, Belo Horizonte e Jenipapo de Minas, dentre outros, com boa resposta dos pacientes tratados.

Segundo o Prof. Mayrink, a vacina está sendo testada na Colômbia e no Equador, sob a coordenação da OMS. Os testes estão em fase final e, até agora, os resultados são semelhantes aos do Brasil. O pesquisador está otimista também com os resultados dos testes da vacina preventiva, realizados nos municípios de Caratinga e Varzelândia, em Minas Gerais.

Ele acredita que, nos próximos dois anos, a preventiva também possa ser produzida em escala industrial e comercializada em todo o País.

\r\n

Revista Minas Faz Ciência Nº 9 (dez de 2001 a fev de 2002)