Pesquisa

Dinossauros


Centro Llewerlyn Ivor Price
Senhores absolutos do planeta Terra, os dinossauros, extintos há 65 milhões de anos, ainda fazem muito sucesso e têm espaço garantido na mídia. "Dinossauro é palavra Mágica", diz o geólogo Luiz Carlos Borges Ribeiro, diretor do Centro de Pesquisas Paleontológicas Llewelyn Ivor Price, em Peirópolis-Uberaba, no Triângulo Mineiro, e coordenador da pesquisa que resultou na construção de uma réplica do maior dinossauro brasileiro, o Titanossauro. Inaugurada no dia 23 de março, é a maior do Brasil feita a partir de fósseis e está exposta no "Museu dos Dinossauros", anexo ao Centro. A réplica - em formato de painel tridimensional, com 12 metros de comprimento por três de altura - foi confeccionada com base em 90 fósseis encontrados em Peirópolis e mostra, com clareza, a massa muscular do animal, um diferencial importante e interessante em relação às convencionais, que normalmente se resumem aos elementos ósseos.

Iniciativas como esta estão consolidando Peirópolis-Uberaba, um dos maiores e mais importantes sítios paleontológicos do Brasil, como centro de excelência na área da paleontologia de vertebrados, notadamente dinossauros.

Um fato interessante e peculiar em Uberaba: milhões de anos após o sumiço, os dinossauros contribuem para o desenvolvimento econômico e social da comunidade de Peirópolis. Segundo o Prof. Luiz Carlos, os achados do Centro Price ultrapassaram os limites da importância científica. Os dinossauros se transformaram em atração turística, e deram origem a um núcleo regional de turismo, hoje a base econômica da comunidade de Peirópolis. Para ele, a pesquisa paleontológica é um elo entre a ciência e a comunidade, porque estimula o aspecto lúdico das pessoas, facilitando a disseminação dos conhecimentos científicos gerados a partir das pesquisas.


Detalhe da réplica do Titanossauro
A pesquisa paleontológica repercute em várias áreas do conhecimento humano e permite ao homem de hoje entender um pouco mais o processo de evolução da vida. Os fósseis são importantes também na pesquisa de recursos minerais, como petróleo, datar as rochas, além de permitir uma melhor compreensão das questões paleoambientais, ou seja, ecossistemas do passado geológico, determinando também se a região foi um dia mar, rio, lago, deserto, entre outros ambientes. Surpreendente mesmo é a função social que os fósseis vêm desempenhando na região de Peirópolis. "Os fósseis nunca foram citados como elementos sociais", comenta o Prof. Luiz Carlos. Segundo o pesquisador, as cerca de 200 pessoas que vivem nos arredores do Centro de Pesquisas tinham como principal atividade econômica a exploração de calcário para a produção da cal, extinta há mais de duas décadas. Com a evidência do Centro, o local foi ganhando a simpatia de turistas curiosos para ver os achados, principalmente os que se referiam aos dinossauros. A comunidade percebeu o filão e hoje vive do "turismo paleontológico". Em Peirópolis, os turistas podem se hospedar na pousada e restaurante Vale dos Dinossauros e fazer um lanche na lanchonete Peirossauros, por exemplo, além, é claro, de visitar o Museu do Dinossauro. São diversas atividades econômicas, especialmente nos setores de serviços e no comércio de produtos artesanais, que giram em torno da magia dos dinossauros. Para o professor, os fósseis em Uberaba conquistaram uma nova aplicação e valor, que transcendem a importância científica." Os dinossauros são elementos imprescindíveis na revitalização sócio-econômico-cultural de comunidades locais portadoras de importantes depósitos fossilíferos", ele diz. O pesquisador acredita que o exemplo pode servir de inspiração para outras comunidades e até mesmo para evitar o tráfico de fósseis, segundo ele, bastante comum no Nordeste do Brasil. "Imagine se essa experiência fosse levada para a Chapada do Araripe, no Ceará, onde, é de conhecimento público, há o maior tráfico de fósseis do País", exemplifica. Segundo ele, esse tráfico é facilitado devido às precárias condições de vida da comunidade. Como os fósseis são cobiçados, acabam sendo facilmente vendidos para estrangeiros e rapidamente estão fora do Brasil, significando uma grande perda, no mínimo, para a pesquisa paleontológica brasileira.

A réplica


Técnico remove o Crocodilomorfo
Após dez anos de escavações, a equipe de pesquisadores, coordenada pelo Prof. Luiz Carlos, conseguiu reunir centenas de ossos de Titanossauro, dos quais 90 foram utilizados na confecção da réplica, totalizando 40% do animal. A equipe optou por montar a réplica/painel, uma das mais completas do mundo, mostrando a metade esquerda de um dinossauro adulto, da ordem dos Saurópodos, da família dos Titanossauros, que habitaram há dezenas de milhões de anos a região do Triângulo Mineiro. Essa opção possibilitou uma cópia fidelíssima do exemplar, já que a maioria dos fósseis era exatamente a dos que compunham o lado esquerdo do animal. Os fósseis originais estão expostos junto com a réplica, construída em resina de poliéster e montada com colas especiais. A exibição em corte longitudinal possibilita também a visão sistêmica da anatomia óssea e muscular do dinossauro.

O custo total do projeto foi de R$24mil, mas, destaca o pesquisador, foi a partir do apoio da FAPEMIG, de R$15 mil, que o projeto nasceu e ganhou força, e possibilitando o início de outra importante pesquisa, graças à descoberta fantástica de um crocodilo, com 80% de um mesmo indivíduo preservado, que talvez seja uma espécie inédita no mundo.

O crocodilo "Mesossúquio"

Durante o projeto "Escavações Paleontológicas em Peirópolis-Uberaba - MG", foi encontrado, em setembro do ano passado, um fóssil de crocodilo em excelente estado de preservação, com crânio completo, praticamente todos os elementos ósseos da coluna vertebral e apêndices locomotores.

Os "Mesossúquios" são encontrados em rochas do período Cretáceo - intervalo de tempo geológico compreendido entre 141 e 65 milhões de anos - e têm grande importância científica porque revelam características únicas, não apresentadas nas espécies atuais, que possibilitam diversas inferências sobre os aspectos paleoambientais e paleoclimáticos, segundo o paleontólogo Ismar de Souza Carvalho, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, um dos assessores-técnicos do projeto.

O Centro de Pesquisas Paleontológicas Llewellyn Ivor Price


O pesquisador Luiz Carlos Ribeiro mostra vértebra de dinossauro encontrada no centro urbano de Uberaba
O paleontólogo Llewellyn Ivor Price foi atraído para Uberaba em meados dos anos 40, quando, por acaso, operários encontraram fragmentos ósseos de um dinossauro próximo à estação ferroviária Mangabeira, na região Norte da cidade de Uberaba. O gaúcho Ivor Price, que se especializara nos EUA, logo percebeu que ali se encontrava um grande sítio paleontológico e intensificou o trabalho, realizando escavações e estudando a fundo os achados. Os registros dos fósseis datam de 80 a 70 milhões de anos de idade. Os resultados eram descritos para a comunidade científica por meio dos diversos artigos publicados e contribuíram, de forma significativa, para o avanço do conhecimento da paleontologia no Brasil. Price permaneceu na região até 1974 e todo o material coletado nestes quase 30 anos de pesquisa encontra-se depositado na coleção do Departamento Nacional da Produção Mineral - DNPM -, no Rio de Janeiro.

Para dar continuidade ao trabalho de Price, a prefeitura de Uberaba iniciou, em 1991, a implantação do Centro de Pesquisa L.I. Price, no bairro de Peirópolis, a 25km do centro de Uberaba, nas instalações da antiga estação ferroviária do vilarejo. O prédio foi totalmente reformado para abrigar os laboratórios, o alojamento dos pesquisadores, a administração e o Museu Paleontológico.

O Centro Price é uma referência para pesquisadores do mundo inteiro. É o único do Brasil que mantém coletas sistemáticas anuais por cinco meses, de junho a novembro, no período da seca, quando a rocha pode ser escavada sem riscos de danificar os fósseis, o que pode acontecer na época das chuvas. Por meio dessa dinâmica, o Centro vem ampliando a sua coleção. No seu acervo fóssil estão depositadas mais de 1.500 peças. Depois de coletados, os fósseis são identificados, preparados e disponibilizados para estudos de pesquisadores brasileiros e estrangeiros.

O Centro de Pesquisas e o Museu dos Dinossauros integram hoje a Fundação Municipal de Ensino Superior de Uberaba - FUMESU - e a Faculdade de Educação de Uberaba - FEU -, ambas subvencionadas pela municipalidade. As pesquisas são realizadas por meio de convênios de cooperação técnico-científica com algumas das maiores instituições de pesquisas nessa área. Uma das pesquisas realizadas atualmente está sendo feita em parceria com o Museu Argentino de Ciências Naturais e é sobre a distribuição geográfica dos dinossauros na América do Sul, com foco em Peirópolis e na região da Patagônia, na Argentina. \r\n

Ovos são atração no Museu dos Dinossauros


Em cima, ovo fossilizado de dinossauro e, em baixo, ovo de avestruz

O que diferencia o Museu Paleontológico de Peirópolis dos demais é a característica dinâmica de sua exposição. Além dos tradicionais painéis, fotos, gravuras e textos explicativos, o Museu exibe os mais representativos fósseis dos diversos animais da fauna regional e acrescenta, a cada ano, informações atualizadas e exemplares fósseis inéditos produzidos pela equipe científica. Com quase nove anos de existência, o Museu recebeu cerca de 175 mil turistas brasileiros e estrangeiros, de 25 países.

Entre os dinossauros - carnívoros e herbívoros -, os quelônios, os crocodilomorfos, os peixes, os moluscos, os ostrácodos e os fósseis de plantas, os ovos de dinossauros são os que mais despertam a atenção dos visitantes do Museu.

O primeiro ovo de dinossauro da América Latina foi descoberto em1947, na região da estação Mangabeira, ao Norte de Uberaba. Em 1951, Price descreveu o achado inédito para a comunidade científica. De lá para cá, foram registradas mais duas descobertas, sendo a última em 1999, projetando Uberaba como a região do país em que foram encontrados os únicos ovos completos.

Quem nunca viu um ovo de dinossauro, na maioria das vezes, imagina um ovo proporcional ao animal. Em uma rápida enquete com leigos, as respostas foram surpreendentes e engraçadas. A mais exagerada foi a de um rapaz que imaginava o ovo "do tamanho de um fusquinha". Os mais modestos o comparavam a um ovo de páscoa gigante. Na realidade, o ovo de dinossauro é menor do que o de avestruz, como mostra a foto.

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Revista Minas Faz Ciência Nº 6 (mar a mai de 2001)