Moranga-híbrida

Leite de vaca e bicarbonato de sódio podem substituir os agrotóxicos



Não há dúvida de que os agrotóxicos são uma grande conquista da agricultura mundial. A tecnologia possibilitou o controle de pragas que diminuem a produtividade ou até mesmo dizimam plantações de frutas, leguminosas, hortaliças e cereais em todo o planeta. No entanto, esses defensivos agrícolas podem causar sérios danos à saúde humana e ao meio ambiente. Como o próprio nome diz, eles são tóxicos e devem ser aplicados com muita cautela, o que nem sempre acontece. Outra desvantagem dos agrotóxicos é o seu alto custo que, inevitavelmente, reflete no preço final dos alimentos.

Na cultura da moranga-híbrida, produtores mineiros foram beneficiados pela identificação de defensivos agrícolas não-tóxicos: o leite de vaca e o bicarbonato de sódio. Esses produtos de baixo custo e facilmente encontrados no mercado são capazes de combater a principal praga da moranga-híbrida, sem provocar distúrbios no meio ambiente e na saúde do homem. A descoberta é resultado de um dos projetos do Programa Olericultura, da Epamig (Empresa de Pesquisa Agropecuária do Estado de Minas Gerais), que conta com o apoio da FAPEMIG.

A moranga-híbrida Tetsukabuto é uma das olerícolas que mais cresceram em número de produtores, área plantada e produção nos últimos anos em Minas Gerais. De alto valor nutritivo e comercial, é cultivada na região centro-oeste do Estado, principalmente em Campo das Vertentes, e considerada prioritária no Programa de Olericultura da Epamig. Segundo a engenheira agrônoma e secretária-executiva do Programa, Maria Helena Tabim Mascarenhas, existem poucos produtos químicos registrados no Ministério da Agricultura específicos para a cultura de moranga. No entanto, acrescenta, "há estimativas de que sejam aplicadas cerca de 34 toneladas de agrotóxicos nas plantações de moranga, em Minas Gerais, uma média de 14 kg por hectare".


Os defensivos agrícolas, além de aumentarem os custos de produção, provocam impactos ambiental e social ainda maiores. Sua aplicação indiscriminada pode contaminar o aplicador, que muitas vezes trabalha sem a devida proteção, e também deixar resíduos nos frutos quando os períodos de carência são ignorados. Os agrotóxicos podem contaminar, ainda, os lençóis freáticos e suas embalagens necessitam de uma destinação final cuidadosa. Na cultura da moranga, grande parte desses defensivos é utilizada no controle do oídio, uma das principais doenças das curcubitáceas (família das morangas). A praga é caracterizada pelo aparecimento de manchas brancas nas folhas que limitam o processo de fotossíntese e, conseqüentemente, a qualidade e a produtividade das plantas.

A elevada aplicação de agrotóxico e sua má utilização pelos pequenos agricultores motivaram os pesquisadores do Centro Tecnológico do Centro-Oeste/Epamig (CTCO), em Prudente de Morais, a buscarem novas alternativas de controle do oídio, através de defensivos inócuos ao homem e ao meio ambiente e, ainda, que não interferem no processo de polinização da moranga. Depois de dois anos de trabalho e de uma série de testes, a equipe concluiu que o leite de vaca e o bicarbonato de sódio são fortes candidatos para a substituição dos agrotóxicos. Além de mais baratos, os produtos alternativos são também mais saudáveis.

Sob a coordenação do agrônomo Valter Rodrigues de Oliveira, os pesquisadores avaliaram a eficiência não só do leite de vaca in natura e do bicarbonato de sódio, mas também do vinagre de vinho tinto e do extrato pirolenhoso, isoladamente ou em mistura, no controle do oídio. Na Fazenda Experimental do CTCO, foram analisados 16 tratamentos diferentes para a doença da moranga: uma aplicação de água, chamada de testemunha, três doses de bicarbonato de sódio, três de vinagre, três de misturas dos dois últimos produtos, três doses de leite de vaca, um tratamento com o Bipirol (extrato pirolenhoso), um com enxofre e outro com fenarimol. O enxofre e o fenarimol foram utilizados como padrão para comparação. Ambos são fungicidas registrados no Ministério da Agricultura para o controle de curcubitáceas.

Maria Helena Mascarenhas, coordenadora do Programa Olericultura da Epamig

A freqüência da aplicação é um dos fatores importantes na avaliação dos produtos. A pulverização do fenarimol foi realizada de 14 em 14 dias e a das demais substâncias, a cada sete dias. Em todos os casos, o tratamento foi iniciado imediatamente após o desenvolvimento completo da primeira folha da moranga. Durante o ciclo da cultura, 14 pulverizações foram aplicadas.

No entanto, a avaliação foi baseada na severidade da doença e na produtividade dos frutos comerciais. Nos tratamentos com enxofre e fenarimol, o oídio apareceu no 43º dia após a semeadura. A doença progrediu por 40 dias, mas em uma intensidade muito baixa. Já nos demais tratamentos, a incidência de oídio ocorreu a partir do 33º dia após a semeadura. A intensidade também foi baixa e no caso do leite de vaca e do bicarbonato de sódio foi muito menor.

A maior produtividade dos frutos foi observada nos tratamentos com enxofre, com bicarbonato de sódio e com leite. Nos três casos, o índice foi superior a 16 toneladas por hectare. Os experimentos foram realizados em blocos e repetidos quatro vezes. Segundo a coordenadora da pesquisa, "o diferencial do leite de vaca e do bicarbonato de sódio é o fato de não representarem risco para a saúde do homem, nem para o meio ambiente."


O trabalho foi apresentado aos agricultores da região em um "Dia de campo", realizado na sede da fazenda experimental, em junho deste ano. Na ocasião, foram servidas dezenas de receitas à base de moranga, como pães, doces, geléias e biscoitos. Depois de assistir a palestras, visitar as plantações e saborear as guloseimas, os produtores buscam comprovar a eficiência da nova técnica. Segundo o engenheiro agrônomo José Maria da Silva, responsável pelo escritório de Cordisburgo da Emater (Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural de Minas Gerais), "muitos agricultores já adotaram o uso do leite e do bicarbonato de sódio no controle de oídio, mas ainda não houve tempo para os primeiros resultados. No entanto, as expectativas são boas." O engenheiro confia no trabalho da Epamig e acredita que o controle alternativo trará muitos benefícios aos produtores.

Frutificação

Outro trabalho desenvolvido no CTCO, também para a cultura da moranga tipo Tetsukabuto, é utilizado há três anos pelos agricultores. Nessa linha de pesquisa, a equipe estudou a forma e a dosagem adequada para a aplicação de hormônio que tem o papel de induzir a frutificação da planta. "Com a definição da dosagem e, sob a orientação dos técnicos da Emater, os produtores garantem maior produtividade e melhor qualidade dos frutos", afirma José Maria.

A Tetsukabuto é caracterizada pela esterilidade dos frutos machos. Por isso, sua cultura requer o plantio de polinizadores intercalados com as plantas híbridas ou a polinização artificial. Em alguns casos, as duas técnicas são utilizadas simultaneamente. A formação dos frutos também pode ser induzida com a aplicação de hormônio nas flores. No entanto, quando utilizada em excesso ou de forma inadequada, essa substância faz com que as folhas enruguem e, assim como as manchas causadas pelo oídio, prejudiquem a fotossíntese da planta. Por ser um sintoma semelhante ao causado por vírus, o enrugamento das folhas leva os produtores a fazer pulverizações desnecessárias com inseticidas para o controle de insetos vetores de viroses. Assim, os custos da produção aumentam e a qualidade cai.

Com o objetivo de facilitar e otimizar a prática de indução da frutificação da moranga-híbrida, pesquisadores da Epamig desenvolveram um estudo com o ácido 2,4D, hormônio adotado pelos produtores de moranga na indução do crescimento dos frutos. O trabalho resultou na identificação da dose ideal para aplicação do 2,4D. A prática já está sendo adotada por agricultores de Cordisburgo e de Prudente de Morais.

Dois ensaios foram conduzidos em campo, com três híbridos do tipo Tetsukabuto. Em um, foi aplicado o ácido 2,4D apenas na parte interna das flores femininas e, no outro, apenas na parte externa. As doses já haviam sido avaliadas na casa de vegetação da fazenda e apresentaram bons resultados na indução da frutificação sem causar toxidade à cultura. Os pesquisadores desenvolveram 15 tratamentos e apenas uma pulverização do hormônio, com média de 1ml de solução em cada flor. Eles fizeram três repetições em blocos de dez plantas. Os resultados foram animadores e confirmaram a eficiência do produto que, de acordo com a pesquisa, deve ser aplicado em doses de 50 a 200 mg/l dentro e fora da flor.

Segundo os pesquisadores, o uso de hormônio pode substituir a polinização em áreas de até cinco hectares. Quando a área é maior, recomenda-se a sincronização do florescimento e a polinização natural por abelhas, devido à dificuldade de aplicar o hormônio.

No CTCO, as pesquisas na cultura de moranga não param por aí. Há uma série de estudos que buscam melhorar a produtividade, a qualidade, a resistência dos frutos e agregar valor ao produto. Seja qual for a linha de pesquisa, o objetivo é sempre o mesmo: facilitar o trabalho e melhorar a qualidade de vida do agricultor, garantir a produção de alimentos mais saudáveis e baratos e, ainda, preservar o meio ambiente.

Karina Almeida



Abóbora, moranga e moranga-híbrida: qual a diferença?

Da família Curcubitaceae, a moranga-híbrida é resultante do cruzamento entre a moranga (fêmea) e a abóbora (macho). Foi produzida, inicialmente, no Japão, de onde provém a maior parte das sementes utilizadas no Brasil. É uma hortaliça de paladar muito agradável e de ótima aceitação comercial, especialmente pela resistência ao transporte e armazenamento. A casca, grossa e dura, tem cor verde escura. A polpa é de cor alaranjada e de sabor doce. Minas Gerais é o maior produtor do País.

Também da família Curcubitaceae, a abóbora e a moranga são de origem sul-americana e das mais antigas espécies cultivadas. Consideradas boas fontes de vitamina C, beta caroteno (pró-vitamina A), cálcio, ferro e fósforo, são consumidas refogadas e usadas na fabricação de doces ou no trato animal.

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Revista Minas Faz Ciência Nº 13 (dez de 2002 a fev de 2003)